ONU vê risco de crimes contra a humanidade na Líbia

A televisão estatal da Líbia informou hoje que são "mentiras" os relatos segundo os quais as forças de segurança estão massacrando os manifestantes que protestam contra o governo. Apesar disso, a Alta Comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para Direitos Humanos, Navi Pilay, afirmou que os ataques contra os civis no país podem representar um "crime contra a humanidade".

AE, Agência Estado

22 de fevereiro de 2011 | 09h24

O líder da Líbia, Muamar Kadafi, apareceu brevemente na televisão estatal no fim da noite de ontem, afirmando que eram "mentiras" os relatos de que as forças de segurança estejam massacrando os manifestantes. Hoje, porém, a rede Al-Jazeera informa que moradores da capital Trípoli disseram que forças leais a Kadafi voltaram a disparar contra manifestantes. Há relatos de ataques contra civis em Trípoli e em outras cidades do país, inclusive com o uso de aviões de guerra.

"Eles dizem que há massacres em várias cidades e regiões da Líbia. Nós devemos lutar contra esses rumores e mentiras, que são parte de uma guerra psicológica", afirmou a televisão estatal Al-Jamahiriya. Segundo a rede, essas informações "buscam destruir nosso moral, nossa estabilidade e nossas riquezas". Já testemunhas em Trípoli afirmam que há "massacres" em algumas partes da capital. A TV estatal afirmou que as forças de segurança estavam atacando "antros de terroristas".

Cerca de dez mil egípcios esperam na fronteira entre Líbia e Egito para voltar a seus países, fugindo dos distúrbios. Segundo trabalhadores egípcios, manifestantes contrários a Kadafi estão no controle do leste da Líbia, em uma região que inclui a cidade de Baida.

Os egípcios exibiram vídeos feitos em celulares, mostrando supostos mercenários contratados pelo governo que foram atacados por manifestantes em Baida. Um vídeo mostrava um homem que, segundo os egípcios, era um mercenário do Chade, sendo agredido até a morte. De acordo com eles, a polícia e as unidades do Exército da área estão ao lado dos rebeldes. O Egito reforçou a presença de militares na fronteira para lidar com o afluxo de pessoas.

Em seu discurso, Kadafi apareceu para rebater os "rumores maliciosos" de que tivesse saído da Líbia. Os protestos contra seu governo começaram há uma semana, na nação do norte africano rica em petróleo. O líder prometeu se encontrar com os jovens no centro da capital. Além de manifestações contra Kadafi, há também atos a favor do líder.

Crimes

Grupos pelos direitos humanos afirmam que a ação do governo contra os manifestantes já deixou entre 200 e 400 mortos. Em um comunicado, a Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos pede o fim "dos atos ilegais de violência contra manifestantes". Pilay afirmou que "os ataques generalizados e sistemáticos contra a população civil podem representar crimes contra a humanidade".

A principal funcionária encarregada dos direitos humanos na ONU pediu o fim da violência. Além disso, notou que a comunidade internacional deve se unir para condenar a repressão. Pilay disse que é preciso haver uma investigação internacional independente da "violenta supressão dos protestos no país". Também elogiou o povo da Líbia por se posicionar contra "autoridade repressivas" e disse que os líbios têm sido há tempos "vítimas de sérios excessos da liderança" nacional. Kadafi está no poder desde 1969.

"O povo líbio está cansado de corrupção, cansado das riquezas de seus recursos beneficiarem apenas uns poucos, cansado de estar desempregado, cansado de ter seus direitos ignorados", afirmou a funcionária no comunicado. "Eles querem uma voz no governo e um papel na economia e eles não serão silenciados."

Manifestantes chegaram a atacar ontem delegacias e escritórios da emissora de televisão estatal. Prédios do governo chegaram a ser incendiados. Alguns funcionários do governo líbio deixaram seus postos, em protesto contra a repressão aos manifestantes.

Hoje, um diplomata líbio lotado na embaixada do Marrocos, Azeddine Louaj, pediu demissão em protesto contra o "extermínio diário do povo". Os embaixadores líbios nas Nações Unidas e na Austrália também anunciaram que não mais representam o regime. Também o embaixador da Líbia na Índia cortou sua relação com o regime. No domingo, o representante permanente da Líbia na Liga Árabe, Abdel Moneim al-Honi, pediu demissão para "se unir à revolução". As informações são da Dow Jones.

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