Ônus da gasolina subsidiada

Para corrigir distorções e fazer caixa, Venezuela aumentará preço do combustível apesar do risco de revoltas

Juan Nagel/Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2014 | 02h02

O governo da Venezuela está desesperado em busca de dinheiro. Tão desesperado que tem planos para mexer em coisas em que poucos ousariam tocar, como o enorme subsídio sobre a gasolina.

O preço oficial de um litro de gasolina é 0,097 bolívares. A 6,3 bolívares por dólar no câmbio oficial, ele equivale a US$ 0,015. À taxa de mercado atual, esse valor exigiria uma notação científica. Estimativas conservadoras sugerem que o subsídio anual é de US$ 12 bilhões.

O preço da gasolina ficou inalterado nos últimos 17 anos, período em que a inflação anual atingiu dois dígitos. O que leva a uma pergunta: por que políticos acham tão difícil deixar o mercado determinar o preço?

A resposta está no trauma da primeira vez em que tentaram liberar o preço. Milhares de pessoas saíram às ruas, protestando e saqueando estabelecimentos. O "caracazo" foi um claro divisor de águas na política venezuelana.

Desde então, o preço da gasolina tornou-se a "terceira via" da política. O último presidente que tentou aumentar o preço foi Rafael Caldera, predecessor de Hugo Chávez. Embora não tenha enfrentado revoltas, Caldera saiu do governo com baixíssima popularidade.

As consequências da distorção são uma aula de economia. A gasolina barata é contrabandeada pela fronteira da Colômbia, onde atinge preços de mercado. Nos postos venezuelanos, as filas são longas e as ruas estão repletas de carros da década de 70 que consomem em excesso.

O presidente Nicolás Maduro tem insinuado que atacará o problema. Autoridades vêm se referindo ao pesado ônus que o subsídio acarreta para as finanças públicas e às distorções que ele provoca no mercado.

Uma das ironias dessa medida é que o chavismo teria surgido de um movimento criado após o caracazo. São as mesmas pessoas que, no Congresso e no gabinete, atacaram por anos políticas "neoliberais" como a elevação do preço da gasolina.

Não se sabe quando o governo pretende executar o aumento. A mídia local estimou o novo valor em 2,7 bolívares por litro (US$ 0,42)- o que significa um aumento de mais de 3.000%. Segundo o governo, esse valor cobriria o custo de produção, mas está longe dos valores internacionais.

Independentemente disso, as finanças pessoais dos venezuelanos, que já enfrentam dificuldades, sofrerão um enorme impacto. A pergunta é se a população acolherá bem e suportará o novo encargo ou se esse aumento a levará novamente às ruas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Juan Nagel é blogueiro.

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