Opção de não ter filhos vira tema de campanha

Oposição propõe estímulo financeiro para mães como forma de deter o envelhecimento da população

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

"Casar ou não casar" transformou-se em um dos temas mais quentes da campanha eleitoral no Japão, que enfrenta o risco de ver sua população encolher em 25% até a metade do século caso seus moradores não se animem a ter mais filhos.Medidas para estimular os japoneses a se reproduzir ocupam lugar de destaque no programa do provável vitorioso de de hoje, o Partido Democrático do Japão (PDJ), que propõe o pagamento mensal de quase US$ 300 para auxiliar na criação de cada filho, além de um prêmio de US$ 6 mil no momento em que a criança nasce.No governista Partido Liberal Democrático (PLD) o assunto deu origem a uma das maiores gafes do premiê Taro Aso durante a campanha eleitoral. Há uma semana, Aso afirmou que jovens pobres e desempregados não deveriam se casar, quando seu próprio governo tenta encontrar meios para aumentar a taxa de natalidade do Japão. "É melhor não se casar com pouco dinheiro", disse em debate com universitários. A decisão de ter ou não filhos tem impacto brutal sobre a capacidade de a sociedade japonesa se sustentar no futuro. Com a maior expectativa de vida do mundo e uma população de idosos que já representa 20% do total, o Japão enfrentará o desafio de manter um número cada vez maior de aposentados com um universo de trabalhadores ativos que míngua rapidamente. Mesmo os cenários mais otimistas apresentam um país com muitos velhos e poucos jovens nas próximas décadas. O número de pessoas com menos de 15 anos deve cair dos atuais 16,8 milhões (13,2% do total) para 8,2 milhões em 2050 (8,6%). Ao mesmo tempo, o universo dos que têm mais de 65 anos vai subir dos 25,8 milhões de hoje para 37,6 milhões em 2050. E há previsões mais pessimistas. Atualmente, o Japão tem 3,3 trabalhadores ativos para cada aposentado e essa relação deverá cair para o alarmante patamar de 1,3 em 2050. O último censo, realizado em 2005, apontou o mais baixo ritmo de crescimento populacional desde o fim da 2ª Guerra, com expansão de apenas 0,7% em 5 anos.A resistência dos japoneses em ter filhos explica-se por um misto de fatores econômicos e culturais. O mais evidente é o aumento do número de mulheres no mercado de trabalho. À diferença de outros países desenvolvidos, não é fácil para as japonesas conciliar carreira e maternidade. "As mulheres perguntam-se se vale a pena se casar e engravidar ou manter a liberdade e independência", disse a socióloga Yuko Kawanishi, solteira e sem filhos. De acordo com Yuko, na sociedade japonesa acredita-se que as mães devem se dedicar integralmente a seus filhos até a idade de 3 ou 4 anos. Além disso, as que decidem trabalhar enfrentam dificuldades para encontrar creches. Pesquisas mostram que 70% das mulheres abandonam o emprego quando se tornam mães.Yuko ressalta que a maioria das japonesas alimenta o sonho de se casar, mas observa que a união está ocorrendo cada vez mais tarde, o que reduz as chances de filhos. As amigas Mari e Aya, ambas de 26 anos, dizem que pretendem casar "um dia" e nutrem um vago desejo de ter filhos. Elas não têm namorado e parecem mais preocupadas com suas carreiras do que com a formação de uma família. As duas dizem que gostariam de encontrar um marido que ajudasse nas tarefas domésticas, mas não sabem se ele existe. No Japão ainda prevalece a tradicional divisão de trabalho na qual o homem ganha dinheiro e a mulher cuida da casa, mesmo que ela também esteja empregada. Naomi, de 41 anos, tem dois filhos, de 8 e 4 anos, e parou de trabalhar assim que se casou. "Foi uma opção minha", ressalta. Em sua casa, Naomi cuida da casa e o marido trabalha. "Ele não ajuda em nada."O alto custo de educar um filho é outro fator que inibe a multiplicação dos japoneses. O ensino médio no país não é totalmente gratuito e sustentar um filho durante a universidade pode custar até US$ 200 mil.

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