KCNA/via REUTERS
KCNA/via REUTERS

Opções de contenção dos EUA na Coreia do Norte são limitadas e apresentam riscos

Capacidade de os norte-coreanos atingirem os Estados Unidos, como observou recentemente o ex-secretário da Defesa William Perry, muda todos os cálculos

David Sanger / NYT, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2017 | 05h00

Quando o então recém-eleito presidente Donald Trump afirmou no Twitter, no início de janeiro, que um teste realizado pela Coreia do Norte com um míssil balístico intercontinental capaz de alcançar os Estados Unidos "não ocorrerá", ele não avaliou dois aspectos da situação: o quão próximo estava Kim Jong de atingir seu objetivo e quão limitadas são as opções de qualquer presidente para frear o líder norte-coreano.

Os sete meses seguintes foram uma aula para Trump. Com o teste de quatro de julho, a Coreia do Norte pode ter lançado um míssil que, segundo analistas, tem potencial para atingir o Alasca.

A atividade agressiva de Kim com os testes, mostra que não está distante a possibilidade de ele atingir o continente americano, mesmo que levem anos até conseguir introduzir uma ogiva nuclear em seus mísseis cada vez mais potentes. Mas para Trump e sua equipe de segurança nacional, a fronteira técnica ultrapassada em quatro de julho simplesmente sublinha o dilema estratégico de amanhã.

A capacidade de os norte-coreanos atingirem os Estados Unidos, como observou recentemente o ex-secretário da Defesa William Perry, "muda todos os cálculos". O temor não é de que Kim lance um ataque preventivo contra a Costa Oeste; seria uma ação suicida e o que o líder de 33 anos tem demonstrado nos cinco anos no cargo tem a ver com sobrevivência. Mas se ele tem uma capacidade potencial de revidar, este fato deverá conformar qualquer decisão que Trump e seus sucessores adotarão no tocante à defesa dos EUA na região.

Trump ainda tem algum tempo. O que os norte-coreanos realizaram enquanto os americanos estavam concentrados nas comemorações do dia da Independência, significou um enorme avanço, mas não uma vívida demonstração do seu alcance nuclear.

Seu míssil percorreu pouco mais de 930 quilômetros, o que não foi em si uma grande façanha. Mas chegou a uma altitude de 2.800 quilômetros para depois reentrar na atmosfera, um voo de 37 minutos segundo cálculos do Comando do Pacífico dos Estados Unidos (e alguns minutos mais segundo os norte-coreanos).

Explicando, você tem um míssil que pode atingir o Alasca, mas não Los Angeles. O que fortalece a avaliação do diretor da Missile Defense Agency, vice-almirante James Syring durante audiência no Congresso no mês passado, Segundo ele, os Estados Unidos "precisam assumir que a Coreia do Norte pode nos atingir com um míssil balístico".

Talvez seja por isto que Trump não estabeleceu nenhuma "linha vermelha" para os norte-coreanos.

Ele nem mesmo repetiu a política adotada por George W. Bush em outubro de 2006 após o primeiro teste nuclear realizado pela Coreia do Norte, afirmando que "responsabilizaria totalmente" o país se compartilhasse sua tecnologia nuclear com qualquer outra nação ou grupo terrorista. Os assessores de Trump dizem que não enxergam benefícios em traçar linhas que podem limitar as opções e preferem mais manter o Norte na incerteza.

Então, quais são as opções de Trump e quais são suas desvantagens?

Há um método clássico de contenção, que os Estados Unidos adotaram contra a União Soviética na Guerra Fria. Mas não resolve o problema. É apenas uma maneira de conviver com ele.

Trump poderia intensificar as sanções, aumentar a presença naval americana na Península Coreana - "estamos enviando uma armada" disse ele em abril - e acelerar o ciber-programa secreto dos Estados Unidos para sabotar os lançamentos de mísseis. Mas se essa combinação de intimidação e recursos técnicos fosse bem sucedida, Kim não teria realizado o teste neste quatro de julho, sabendo que ele só levaria a mais sanções, mais pressão militar e mais atividade secreta.

Trump poderia dar um próximo passo e ameaçar com ataques militares preventivos no caso de os Estados Unidos detectarem um lançamento iminente de um míssil balístico intercontinental - talvez com intenção de demonstrar o potencial de alcançar a Costa Oeste. Perry defendeu a medida em 2009 em um artigo publicado no The Washington Post, que escreveu junto com o futuro secretário da Defesa Ash Carter.

"Se a Coreia do Norte persistir com seus lançamentos, os Estados Unidos deveriam imediatamente deixar clara sua intenção de atacar e destruir "os mísseis em sua rampa de lançamento, escreveu ele. 

Mas ele observou recentemente que "embora fosse uma boa ideia na época", e ele parece ter dúvidas, "ela não é uma boa ideia hoje".

A razão é simples: em 11 anos a Coreia do Norte construiu muitos mísseis de muitas variedades para que os benefícios de um ataque valessem o risco. Testou uma nova geração de mísseis movidos a combustível sólido, que podem ser ocultos em cavernas e lançados rapidamente. E ainda possui sua derradeira arma de retaliação: a artilharia ao longo da Zona de Desmilitarização que pode chegar a Seul, cidade com cerca de 10 milhões de pessoas e um dos mais vibrantes centros econômicos da Ásia.

Em resumo, este é um risco que os norte-coreanos estão assumindo e que mesmo Trump, "apesar de todas as ameaças", não está levando em consideração. "Um conflito na Coreia do Norte "será provavelmente o pior tipo de combate na vida de muitas pessoas" disse o secretário da defesa Jim Mattis no programa "Face the Nation".

O que leva à próxima opção, sobre a qual o presidente sul-coreano Moonh Jae-in falou em Washington na sexta-feira quando visitou Trump: negociação. Que começaria com um congelamento dos testes nucleares e com mísseis pelos norte-coreanos em troca de um acordo em que os Estados Unidos limitariam ou suspenderiam os exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul. O presidente da China há muito tempo defende este enfoque, que foi apoiado pelo presidente Vladimir Putin após seu encontro com Xi Jinping.

Talvez seja o melhor caminho disponível. Mas também envolve riscos. Basicamente atende ao objetivo chinês e norte-coreano de limitar a liberdade de ação militar dos Estados Unidos no Pacífico e com o tempo corroer a qualidade da dissuasão militar americana e sul-coreana.

Negociações com o Norte não são uma ideia nova. Bill Clinton tentou em1994 e George W. Bush nos últimos dois anos do seu mandato. Mas ambos descobriram que, quando os norte-coreanos verificam que os benefícios econômicos são limitados, os acordos caem por terra.

Além disto, um congelamento hoje, quando a Coreia do Norte possui cerca de 10 a 20 armas nucleares, basicamente é o reconhecimento de que o arsenal modesto norte-coreano está aí para ficar.

O secretário de Estado Rex Tillerson, quando visitou Seul em meados de março, disse a jornalistas que rejeitará qualquer solução que consagre "um conjunto amplo de recursos" do Norte. Desde então ele abrandou seus comentários. Autoridades do governo sugerem agora que um congelamento não seria a solução, mas um passo intermediário na direção de uma Península livre de armas nucleares. Em outras palavras, um acordo em que Kim renunciaria a todos os seus mísseis e armas nucleares.

Mas está claro agora que Kim não tem nenhum interesse em renunciar ao seu poder. /Tradução de Terezinha Martino

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.