Opções de Putin no cenário mundial começam a se esgotar

Tentativa de Moscou de impor-se pela força cobra preço alto demais para o governo e o país

JOSEPH S., NYE, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2014 | 02h02

A agressão velada do presidente russo, Vladimir Putin, à Ucrânia continua - e o mesmo ocorre com as sanções do Ocidente contra seu país. No entanto, não é somente a economia russa que está sob ameaça. O poder brando da Rússia está minguando, com resultados potencialmente devastadores.

Um país pode compelir outros a promover seus interesses de três maneiras: coerção, pagamento ou atração. Putin tentou a coerção - e foi recebido com sanções. A chanceler alemã, Angela Merkel, principal interlocutora europeia de Putin, vem expressando sua frustração em termos cada vez mais ásperos.

Quaisquer que sejam os ganhos de curto prazo que as ações de Putin na Ucrânia ofereçam, elas serão mais do que anuladas na medida em que a Rússia perca acesso à tecnologia ocidental de que precisa para modernizar sua indústria e ampliar a exploração de energia.

Com a economia russa capengando, Putin está encontrado uma dificuldade crescente de empregar a segunda ferramenta de poder: o pagamento. Nem mesmo petróleo e gás, recursos mais valiosos da Rússia, podem salvar sua economia, como demonstra o acordo para fornecer gás à China por 30 anos a preços de compadre.

Resta, apenas, a atração - uma fonte mais potente de poder do que se poderia pensar. A China, por exemplo, vem tentando usar o poder brando para cultivar uma imagem menos ameaçadora - uma que ela espera que enfraqueça e até desencoraje coalizões que foram surgindo para contrabalançar seu crescente poder econômico e militar.

Equilíbrio. O poder brando de um país repousa sobre tês recursos principais: uma cultura atraente, valores políticos que ele sustenta e uma política externa com autoridade moral. O desafio está em combinar esses recursos com ativos de poder duro, como o poder econômico e o militar, para que eles se fortaleçam mutuamente.

Os EUA não conseguiram alcançar esse equilíbrio após a invasão do Iraque, em 2003. Apesar de o poder militar americano ter sido suficiente para derrotar rapidamente as forças de Saddam Hussein, ele o fez à custa de sua atratividade em muitos países. Da mesma forma, enquanto o estabelecimento de um Instituto Confúcio em Manila, para ensinar cultura chinesa ao povo filipino, pode ajudar a cultivar o poder brando da China, seu impacto será seriamente limitado se Pequim simultaneamente usar seu poder duro para intimidar as Filipinas na disputa territorial sobre o recife de Scarborough.

O problema da Rússia é que ela já tem muito pouco poder brando para trabalhar. Aliás, como notou o analista político Serguei Karaganov, em 2009, a falta de poder brando da Rússia é precisamente o que a está impelindo a se comportar agressivamente no cenário mundial - como em sua guerra com a Geórgia.

A Rússia já teve historicamente um poder brando considerável e sua cultura fez grandes contribuições às artes plásticas, à música e à literatura. Além disso, logo após a 2ª Guerra, a União Soviética foi território atrativo para muitos europeus ocidentais, em grande parte por sua liderança na luta contra o fascismo.

Os soviéticos, porém, dilapidaram esses ganhos de poder brando com a invasão da Hungria, em 1956, e da Checoslováquia, em 1968. Em 1989, restava-lhes pouco poder brando. O Muro de Berlim não caiu sob fogo de artilharia da Otan, mas sob o impacto de marretas e tratores comandados por pessoas que haviam mudado de ideia sobre a ideologia soviética.

Agora, Putin está cometendo o mesmo erro que seus antecessores soviéticos. Apesar de sua declaração de 2013 de que a Rússia deveria se concentrar no "uso letrado" do poder brando, ele não conseguiu capitalizar o impulso de poder brando concedido à Rússia por sediar os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, este ano.

Em vez disso, ainda durante o evento, Putin lançou uma intervenção militar parcialmente secreta na Ucrânia que, junto com sua conversa sobre nacionalismo russo, levou a uma séria ansiedade, particularmente em países do antigo bloco soviético. Isso enfraqueceu o próprio objetivo declarado de Putin de estabelecer uma União Eurasiana, liderada pela Rússia, para competir com a União Europeia.

Com poucos estrangeiros assistindo a filmes russos e apenas uma universidade russa classificada entre as 100 principais do mundo, a Rússia tem poucas opções para recuperar seus atrativos. Por isso, Putin tem recorrido à propaganda.

No ano passado, o presidente reorganizou a agência de notícias RIA Novosti, demitindo 40% de seu pessoal e até sua administração relativamente independente. O novo chefe da agência, Dmitri Kiselyov, anunciou a criação da "Sputnik", uma rede financiada pelo governo de centrais, em 34 países, com mil funcionários, produzindo conteúdo de rádio, mídia social e informação em idiomas locais.

Declínio. Um dos paradoxos do poder brando, no entanto, é que a propaganda é com frequência contraproducente pela falta de credibilidade. Durante a Guerra Fria, intercâmbios culturais, como o Seminário de Salzburg, que permitiu a aproximação de jovens de diferentes países - demonstraram que o contato entre populações é muito mais significativo.

Hoje, boa parte dos poder brando dos EUA é produzida não pelo governo, mas pela sociedade civil - incluindo universidades, fundações e cultura pop. Aliás, a sociedade civil não censurada dos EUA e sua disposição de criticar seus líderes políticos, permite que o país preserve o poder brando mesmo quando outros países discordem das ações de seu governo.

Do mesmo modo, na Grã-Bretanha, a BBC conserva sua credibilidade porque ela pode morder a mão do governo que a alimenta. Putin, contudo, continua propenso a reduzir o papel de ONGs e da sociedade civil.

Putin pode compreender que o poder duro e o brando se reforçam mutuamente, mas continua aparentemente incapaz de aplicar essa compreensão à política. Por consequência, a capacidade da Rússia de atrair outros países, na impossibilidade de coagi-los ou pagar-lhes, continuará em declínio. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DA

UNIVERSIDADE HARVARD

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