Operação Condor 'trocou' terra natal de crianças

Divulgação de fotografias ajudou famílias de filhos de vítimas da ditadura militar argentina a encontrá-las

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h02

Matilde Artés Company, Elsa Pavón, María Angélica Cáceres de Julien e Martha Zaffaroni são quatro avós argentinas que cruzaram fronteiras em busca dos netos, roubados durante o regime militar (1976 - 1983). A Operação Condor, aliança entre as ditaduras de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai com o objetivo de eliminar "subversivos", sequestrou e trocou a nacionalidade de alguns bebês desses desaparecidos políticos.

Entre 1970 e 1980, sem Twitter e Facebook - a divulgação de fotografias de família por grupos da América do Sul era essencial para localizar as crianças, como mostram documentos do Clamor, grupo brasileiro que auxiliava nas buscas, obtidos pelo Estado.

Após o desaparecimento de perseguidos políticos, os bebês eram adotados por militares, forma de "destruir a identidade das crianças", segundo documentos do Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels) de Buenos Aires.

Anatole Julien Grisonas, 4 anos, e Victoria Julien Grisonas, 1 ano e meio, foram os primeiros a serem recuperados na Argentina, em 1979. Após a morte dos pais durante uma operação militar, em 26 de setembro de 1976, em Buenos Aires, os irmãos foram deixados em uma praça de Valparaíso, no Chile, e adotados por uma família que não conhecia o passado das crianças.

Os pais biológicos, Mario Roger Julien - militante do Partido Victoria del Pueblo - e Victoria Grisonas moravam na Argentina para fugir da ditadura uruguaia. Quando soube do ocorrido, María Angélica Cáceres de Julien escreveu uma carta ao grupo Clamor e enviou fotografias dos netos, pedindo ajuda. Em dezembro de 1978, o Clamor divulgou os retratos com os dizeres: "Onde elas estão?". Pouco depois, denúncias anônimas indicaram o paradeiro de Anatole e Vicky.

Carla Rutilo Artés, criada no Peru, só foi morar com a avó biológica após oito anos desaparecida. Ela ficou em um orfanato após a prisão dos pais - Graciela Artés, argentina e Enrique Joaquín Lucas, uruguaio, em 1976. Meses depois, foi enviada com a mãe, clandestinamente, para uma prisão na Argentina. Carla então foi roubada e adotada pelo torturador Alfredo Ruffo. Em dezembro de 1977, a Anistia Internacional enviou uma carta ao então presidente da Argentina, general Jorge Rafael Videla, pedindo a imediata soltura das duas, mas o pedido não foi atendido.

Em 1985, com a volta da democracia, o grupo Avós da Plaza de Maio publicou uma foto de Carla com 8 meses, entregue por sua avó materna, Sacha. Ligações anônimas informaram onde a menina morava. Em 24/08/1985, Ruffo foi preso e Carla, com 9 anos, devolvida à avó.

Identificação. Outra criança argentina roubada e recuperada anos depois foi Paula Eva Logares, primeira a ter a identidade revelada pelo teste de DNA. Ela foi capturada com 2 anos, com os pais, Mónica Grinspone Claudio Logares, em Montevidéu, no Uruguai, em 18 de maio de 1978.

A família foi enviada de volta à Argentina, onde Rubén Lavallén, policial de um centro clandestino de detenção se apropriou de Paula. Com a abertura política, o grupo Avós da Praça de Maio publicou fotos da menina e conseguiu obter o endereço da família Lavallén.Em dezembro de 1983, teve início uma ação judicial, pedindo a recuperação de Paula. O parentesco foi comprovado pelo teste de DNA, mas apenas em 1987 a Justiça permitiu que Paula, então com 11 anos, fosse morar com a avó, Elsa Pavón.

Em 27 de setembro de 1976, a uruguaia Mariana Zaffaroni Islas, de 1 ano e meio, foi presa com os pais, Jorge Roberto Zaffaroni e Emília Islas de Zaffaroni, em Buenos Aires. Martha Zaffaroni morava no Brasil e, sem receber notícias do filho, viajou para a Argentina. Lá, tentou denunciar o fato, mas nenhuma autoridade atendeu.

Em janeiro de 1983, em uma entrevista publicada pelo Estado, um oficial das Forças Armadas da Argentina descreveu a história de uma menina roubada dos pais uruguaios. "A criança, hoje em dia, é filha de uma pessoa, quer dizer, é filha adotiva de uma pessoa da base". Depois de seis anos de procura, Martha teve "90% de certeza" de que era a neta desaparecida.

Ela procurou o grupo Clamor e, com a contribuição de parentes e jornalistas do Brasil, publicou uma matéria no jornal argentino Clarín, com uma foto. Pouco depois, uma carta anônima informou que Mariana, chamada de Daniela, morava com Miguel Angel Furci, da Secretaria de Informação do Estado.

Em agosto daquele ano, foi feita a denúncia penal contra Miguel, que continuava afirmando que "Daniela" era sua filha legítima. Em 1985, a Justiça determinou que fosse feito um exame de DNA. Os Furci, então, fugiram para o Paraguai. Mariana foi criada acreditando que tinha sido abandonada pelos pais verdadeiros, terroristas, portanto não aceitava a versão de Martha.

Mariana se encontrou com a família biológica em 1993 e recuperou sua identidade, mas continuou vivendo com a avó adotiva por não acreditar no que lhe contaram. Apenas com o nascimento da própria filha, na década de 2000, ela procurou a família biológica.

De acordo com as Avós da Praça de Maio, cerca de 500 crianças foram roubadas durante o regime militar e apenas 105 foram recuperadas até hoje. O ditador argentino Jorge Rafael Videla foi condenado em julho a 50 anos de prisão pela política de roubo de bebês.

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