Olivier Morin/AFP
Olivier Morin/AFP

Operação global usa app de mensagens desenvolvido pelo FBI para prender 800 pessoas em 17 países

Demanda pelo dispositivo Anom disparou conforme os policiais fechavam redes criptografadas rivais mais antigas e era recomendado por figura importante no mundo do crime

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2021 | 17h09
Atualizado 09 de junho de 2021 | 12h43

SYDNEY - Quadrilhas de tráfico de drogas, assassinos contratados e traficantes de armas pensaram que estavam usando telefones criptografados seguros e de alto custo que os protegeriam enquanto discutiam abertamente as transações de drogas por mensagem de texto. Teve até fotos de abacaxis embalados com cocaína. Mas o que eles estavam realmente fazendo, investigadores revelaram nesta terça-feira, 8, era canalizar seus planos direto para as mãos de agentes de inteligência dos EUA.

Uma coalizão internacional de policiais e investigadores anunciou que havia capturado supostos criminosos em todo o mundo após induzi-los a usar telefones carregados com um aplicativo de mensagens criptografadas controlado pelo FBI.

O esforço audacioso - liderado pelo FBI, a polícia australiana e uma série de agências europeias de aplicação da lei - deu aos oficiais uma janela para as conversas das redes criminosas, enquanto as pessoas planejavam carregamentos de drogas ilegais, tramavam roubos e fechavam contratos para assassinatos.

Policiais - alguns dos quais mal conseguiram conter sua alegria nesta terça-feira - anunciaram que prenderam mais de 800 pessoas e ganharam um entendimento sem precedentes sobre o funcionamento de redes criminosas modernas que continuariam alimentando investigações muito além dos ataques internacionais coordenados que ocorreram recentemente.

"O esforço foi uma das maiores e mais sofisticadas operações de aplicação da lei até o momento na luta contra atividades criminosas criptografadas", disse Jean-Philippe Lecouffe, vice-diretor executivo de operações da Europol, a agência que coordena a atividade policial entre os 27 países da União Europeia, em uma entrevista coletiva em Haia.

Por quase três anos, os policiais estiveram virtualmente dentro no bolso de trás de algumas das principais figuras do mundo do crime. Celulares personalizados, comprados no mercado paralelo e instalados com a plataforma controlada pelo FBI, chamada Anom, circularam e cresceram em popularidade entre os criminosos à medida que entidades criminosas de alto perfil atestavam sua integridade.

No passado, o FBI desarticulou plataformas criptografadas usadas por criminosos para se comunicarem e se infiltrou em outras. Desta vez, decidiu comercializar um aplicativo criptografado próprio para combater o crime organizado, o tráfico de drogas e as atividades de lavagem de dinheiro em todo o mundo. O esforço do FBI foi auxiliado por um colaborador pago que anteriormente havia comercializado outros dispositivos criptografados para membros do submundo do crime global.

Autoridades australianas revelaram a operação em virtude da necessidade de interromper tramas perigosas que estavam em curso no aplicativo e por causa do caráter limitado das autorizações legais para interceptar as mensagens. 

Além disso, segundo o FBI, a investigação foi encerrada perto do fim da autorização porque as provas reunidas já seriam suficientes, de acordo com Suzanne Turner, uma das responsáveis pelo caso nos EUA.

Mensagens diretas para a polícia

Um grande avanço veio depois que alguns policiais australianos se reuniram com agentes do FBI em 2018 para tomar algumas cervejas, de acordo com as autoridades. Os australianos, então, desenvolveram uma capacidade técnica para acessar, quebrar a criptografia e ler comunicações na plataforma do FBI. Os usuários acreditavam que seus dispositivos Anom estavam protegidos por criptografia. Eles realmente estavam, mas todas as mensagens também foram enviadas diretamente para os agentes da lei.

“Essencialmente, eles se algemaram ao endossar e confiar no Anom e se comunicar abertamente dentro dele - sem saber que estávamos assistindo o tempo todo”, disse o comissário da Polícia Federal Australiana, Reece Kershaw.

A operação global, conhecida como Operação Especial Ironside na Austrália e Trojan Shield nos Estados Unidos e na Europa, supostamente expôs criminosos ligados a cartéis de drogas sul-americanos, grupos de tríades na Ásia e quadrilhas criminosas com bases no Oriente Médio e na Europa. No total, 17 países participaram do esforço.

As autoridades disseram que as batidas nesses países nos últimos dias apreenderam mais de 8 toneladas de cocaína, 22 toneladas de maconha e haxixe, 2 toneladas de metanfetamina e anfetamina, 250 armas de fogo, 55 veículos de luxo e mais de US$ 48 milhões em dinheiro e criptomoedas.

"A operação desferiu um forte golpe contra o crime organizado não apenas neste país, mas que ecoará no crime organizado em todo o mundo", disse o primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison.

45 idiomas

Mais de 9 mil policiais estiveram envolvidos, examinando 27 milhões de mensagens enviadas por meio do aplicativo durante os 18 meses de operação. Os criminosos suspeitos usaram o aplicativo como um WhatsApp ilícito ou sistema de mensagem de texto, comunicando-se em 45 idiomas para trocar detalhes de suas atividades, disseram as autoridades. Os países com mais usuários foram Alemanha, Holanda, Espanha, Austrália e Sérvia, de acordo com um processo do FBI em um tribunal federal que foi aberto na noite de segunda-feira.

“Para se ter uma ideia da magnitude de nossa penetração, pudemos ver fotos de centenas de toneladas de cocaína escondidas em carregamentos de frutas. Conseguimos ver centenas de quilos de cocaína escondidos em produtos enlatados”, disse Calvin Shivers, diretor assistente da Divisão de Investigação Criminal do FBI, a repórteres em Haia. “Os resultados são surpreendentes.”

A demanda pelo dispositivo disparou conforme os policiais fechavam redes criptografadas rivais mais antigas, incluindo uma chamada EncroChat que foi desmontada em julho de 2020 e outra, Sky Global, que foi atacada em março. Antes disso, havia cerca de 3 mil usuários de dispositivos vigiados pelo FBI. Depois disso, esse número quase triplicou, disse o processo do FBI.

A operação foi revelada na terça-feira em parte porque um mandado de um terceiro país para encaminhar mensagens às autoridades dos EUA expirou em 7 de junho, disse o documento. O procurador interino dos EUA em San Diego Randy Grossman anunciou na terça-feira que seu escritório acusou 17 estrangeiros de distribuir milhares de dispositivos de comunicação criptografados para grupos criminosos. Oito deles, disse ele, foram presos. Os demais são considerados fugitivos.

“A grande ironia aqui é que os próprios dispositivos que esses criminosos estavam usando para se esconder da polícia eram na verdade faróis para a aplicação da lei”, disse Grossman em um comunicado. 

Os usuários normalmente pagam entre US$ 1.500 e US$ 2.000 por um plano de serviço de seis meses para esses dispositivos e normalmente só conseguem ter acesso ao receber o sinal verde de um usuário atual, afirma o documento, uma etapa que aumenta a confiança do usuário. 

Em uma entrevista coletiva para anunciar a operação, as autoridades americanas disseram que, embora a tecnologia de criptografia tenha benefícios, a operação mostra como pode ser explorada por atores nefastos. “A criptografia também permite que os criminosos operem no mesmo ambiente seguro e protegido, ocultando suas comunicações em um manto de sigilo”, disse Suzanne Turner, a agente especial encarregada do FBI em San Diego.

Policiais globais tiveram sorte com Anom logo no início porque um membro do submundo do crime australiano, Hakan Ayik, um dos criminosos mais procurados do país, elogiou o dispositivo para seus associados e encorajou sua adoção.

“Ele era um dos coordenadores deste dispositivo em particular. Então, ele basicamente entregou seus próprios colegas”, disse Kershaw, o comissário de polícia australiano, a repórteres na terça-feira, dizendo que ele deveria se entregar, considerando a ameaça que enfrenta.

Detalhes

As autoridades descreveram o esforço abrangente e perturbador que esperam que resulte em um sério revés para as redes criminosas em seus países. O processo judicial dos EUA ofereceu detalhes das interações que as autoridades testemunharam no aplicativo: disputas intrincadas sobre os custos de distribuição de drogas, fotos das formas como as drogas eram escondidas, interações amigáveis entre supostos criminosos.

“Há 2 kg colocados em envelopes diplomáticos franceses selados de Bogotá (Colômbia)", escreveu um usuário em março de 2020. “'O único problema é que o COL leva 50/4 Parceiros, incluindo você, precisarão dividir outros 50”.

O processo explicava que os distribuidores colombianos ficariam com 50% dos lucros dos carregamentos de cocaína escondidos na mala diplomática, enquanto outras quatro pessoas dividiriam o restante.

Na Austrália, a polícia usou informações enquanto a operação estava em andamento para apreender 3,7 toneladas de drogas, 104 armas e cerca de US$ 35 milhões em dinheiro. Durante esse tempo, os supostos criminosos não tinham ideia de por que suas drogas estavam sendo apreendidas e suas tramas frustradas, disse a polícia.

A polícia disse que interrompeu uma série de possíveis homicídios, incluindo um complô envolvendo planos para atirar em uma família de cinco pessoas em um café.

Na Suécia, que lutou contra as redes de drogas nos últimos anos, um alto funcionário disse que as autoridades realizaram um dos ataques mais importantes de todos os tempos contra o crime violento e as redes de drogas.

A oficial Linda Staaf, chefe de inteligência da Autoridade Policial Sueca, disse que nos últimos dias, 70 pessoas foram presas. "Muitas delas eram pessoas com papéis essenciais e forte influência no mercado de drogas: aqueles que instigam assassinatos e violência por tiroteios e explosões bem no meio da sociedade sueca.” 

As autoridades dos EUA disseram que entre os presos estavam seis policiais corruptos.

Uma importante oficial da polícia holandesa ficou satisfeita com o que considerou o sucesso do aplicativo. “Tem boa reputação entre os criminosos. Eles o promovem mutuamente como a plataforma que você deve usar para sua confiabilidade absoluta”, disse Jannine van den Berg, comissária-chefe da unidade nacional da polícia holandesa. “Mas nada estava mais longe da verdade.”/ NYT e WASHINGTON POST

 

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