Operação humanitária com apoio brasileiro resgata refém das Farc

Operação humanitária com apoio brasileiro resgata refém das Farc

Fim do cativeiro. Missão com 14 pessoas a bordo de helicóptero militar do Brasil recebe da guerrilha colombiana o soldado Josué Daniel Calvo, de 23 anos, capturado em abril de 2009; espera-se que o mais antigo refém do grupo seja libertado amanhã

João Paulo Charleaux com Efe, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

VILLAVICENCIO, COLÔMBIA

A bordo de um helicóptero do Exército brasileiro, uma missão humanitária resgatou na manhã de ontem com sucesso o soldado colombiano Josué Daniel Calvo, refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) desde abril de 2009. Calvo, andando com uma bengala improvisada, desembarcou no aeroporto de Villavicencio, Departamento (Estado) de Meta, no centro da Colômbia, onde foi recebido por sua família.

A missão foi liderada pela senadora colombiana Piedad Córdoba, que estava a bordo do helicóptero brasileiro ao lado de dez tripulantes, dois integrantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e de um representante da Igreja Católica. Espera-se que a missão humanitária ainda resgate amanhã Pablo Emilio Moncayo, o refém mais antigo das Farc, há 12 anos em cativeiro na selva amazônica.

Com mais de uma hora de atraso por razões climáticas, a operação partiu às 9h22 (horário local). Após o helicóptero levantar voo, Piedad entregou ao piloto as coordenadas do local estabelecido pelos guerrilheiros.

Ao pousar na selva, um médico do CICV examinou Calvo antes de colocá-lo no helicóptero. A aeronave ficou no solo por uma hora para permitir que os guerrilheiros deixassem o local sem serem rastreados.

O ex-refém desembarcou em Villavicencio pouco mais de quatro horas depois do início da operação. Emocionado, trazia uma caixa com um pássaro ? seu mascote no cativeiro. As Farc haviam afirmado que as condições de saúde de Calvo eram ruins. No entanto, o militar desceu sozinho do helicóptero e dispensou o auxílio médico, que o aguardava no aeroporto, para ficar com sua família.

"Sim à paz, não à guerra", gritavam integrantes do grupo Colombianos e Colombianas pela Paz enquanto Calvo descia da aeronave brasileira. "Josué está caminhando vivo, livre e com boa saúde", disse Gloria Cuartas, integrante da organização.

Apoio brasileiro. Dois helicópteros Cougar e um Blackhawk do Exército brasileiro haviam decolado na quinta-feira de Manaus com destino a São Gabriel da Cachoeira, de onde seguiram para a Villavicencio.

Na operação, nenhum dos militares brasileiros portava armas. A exigência não foi feita diretamente pelas Farc, mas pelo CICV, que atua como intermediário neutro.

Tanto a equipe quanto as aeronaves brasileiras estavam identificadas com uma cruz vermelha sob um fundo branco, emblema protegido pelas convenções de Genebra e seus protocolos adicionais, que impedem seu uso em operações militares.

As Farc, entretanto, tem motivos para ver o símbolo da cruz vermelha ? não necessariamente a organização ? com desconfiança. Em julho de 2008, o Exército colombiano usou o emblema para resgatar a ex-senadora Ingrid Betancourt e outros 14 reféns.

Os militares que atuaram no resgate de ontem fazem parte do 4º Batalhão de Aviação do Exército (Bavex), criado em 1993, dois anos depois de um comando de 40 guerrilheiros das Farc terem matado quatro militares brasileiros nas margens do Rio Traíra, num ataque-surpresa.

Na época, os militares pediram reforço de dois helicópteros Esquilo e dois Pantera, que vieram de São Paulo e "liquidaram os inimigos sem voltar para ver o que sobrou", segundo um oficial que trabalhou na região.

Um novo contato com as Farc ocorreu em 1998, dessa vez com o saldo de quatro mortos do lado da guerrilha. Em setembro, um helicóptero Pantera do 4º Batalhão caiu na selva, matando um capitão.

Desde então, o número de efetivos na selva cresceu 350% em 30 anos, com a transferência de militares de batalhões e brigadas do Sul e do Sudeste. Hoje, o 4º Batalhão é composto por quase 500 homens e 12 helicópteros.

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