Alessandro Bianchi/Files
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Operação Mãos Limpas, a origem de um modelo contra a corrupção

Justiça emitiu 3 mil mandados de prisão e 6 mil pessoas foram investigadas, incluindo 438 parlamentares

Janaina Cesar, especial para O Estado

23 de fevereiro de 2020 | 05h00

Com o processo em andamento na Itália, a Lava Jato volta ao berço da operação que serviu de inspiração para sua criação: a Operação Mãos Limpas ou Tangentopoli, como era chamada. No início dos anos 90, um time de procuradores desvendou um esquema de corrupção sistêmico no país. Foram emitidos cerca de 3 mil mandados de prisão, com mais de 6 mil pessoas investigadas, incluindo 872 empresários e 438 parlamentares. 

O que poucos no Brasil sabem é que a Techint também foi alvo da Mãos Limpas, mas os irmãos Gianfelice e Paolo Rocca não foram atingidos pessoalmente. Paolo Scaroni, então CEO do grupo, confessou que havia pago subornos (pelo menos 6,5 bilhões de liras, moeda italiana na época) a políticos, especialmente ao Partido Socialista Italiano, para obter contratos da Enel, estatal de energia elétrica e distribuição de gás natural. Ele negociou com os procuradores e acabou sendo condenado a 16 meses, com possibilidade de liberdade condicional. 

Durante um dos interrogatórios, respondendo ao procurador Antonio di Pietro, Scaroni disse que o dinheiro das propinas vinha de Fabrizio Rocca, que morreu em 1991, e Pietro Palatresi, morto em 1994. Ele especificou que nunca havia falado sobre corrupção com Gianfelice Rocca. 

“Já naquela época, quis saber qual o papel dos irmãos Rocca no esquema corruptivo, mas o Scaroni foi o único condenado no final de tudo”, disse Pietro, em entrevista por telefone ao Estado. “Não sei como terminará esse caso, mas primeiro a Mãos Limpas, e agora a Lava Jato, ajudaram a entender qual o papel dos paraísos fiscais, como alguns países fazem leis tão rígidas e fecham os olhos para certas movimentações fiscais”, disse o procurador.

A Mãos Limpas, no entanto, foi desmontada antes de completar três anos, principalmente após a eleição de Silvio Berlusconi, envolvido em vários escândalos. As leis foram mudadas, dificultando a punição dos crimes de corrupção e de lavagem de dinheiro, e os integrantes da operação passaram a ser atacados pela imprensa. 

3 perguntas para...

Maria Cristina Pinotti, autora de Corrupção: Lava Jato e Mãos Limpas

1. Um ano após lançar seu livro e ver como a Lava Jato se desenrolou, as duas operações são mais semelhantes do que a senhora pensava?

A reação do sistema político contra a eficiência da Justiça nas investigações e punições a crimes de corrupção e lavagem de dinheiro vem sendo menos virulenta do que na Itália. O motivo principal desta diferença é que no Brasil o apoio da população contra a corrupção se mantém forte. Há outra faceta importante. Reconhecidos os efeitos nefastos da corrupção sobre a eficiência econômica e as bases da democracia, seu combate passou a fazer parte da agenda dos grandes organismos internacionais e centros de pesquisa e todo mundo. No início dos anos 1990, quando ocorreu a Mãos Limpas, não era assim, e até mesmo o grau de cooperação internacional na identificação dos crimes financeiros decorrentes da corrupção era muito baixo.

2. Como a senhora vê a resposta da sociedade à Lava Jato?

Pesquisa da Transparência Internacional feita no ano passado com 17 mil pessoas na América Latina e Caribe mostra que “a corrupção no governo” é considerada um grande problema para 85% das pessoas da região, proporção que é maior do que a média em Peru (96%); Colômbia (94%); e Brasil, México e Panamá (90%), países que sofreram com a internacionalização da corrupção brasileira.

3. É possível combater a corrupção sistêmica se pensarmos nesses dois exemplos (Lava Jato e Mãos Limpas)?

A redução permanente da grande corrupção depende de se redesenhar as instituições que permitiram o seu crescimento. Esse é o grande desafio que se coloca para a sociedade. Nossas principais fragilidades institucionais foram identificadas, mas a maioria ainda está à espera da solução adequada. / Com Fernanda Simas 

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