Andrei Netto / Estadão
Andrei Netto / Estadão

Operários franceses aderem a Le Pen

Em fenômeno similar ao de região que votou em massa em Trump, descontentamento com desindustrialização alimenta discurso populista

Andrei Netto, Enviado Especial / Florange, França, O Estado de S. Paulo

20 de novembro de 2016 | 05h00

FLORANGE, FRANÇA - Durante mais de 70 anos, a indústria siderúrgica da região de Lorena, no nordeste da França, foi símbolo de pujança econômica e orgulho de toda uma sociedade, impulsionada pelo trabalho da classe operária. Há três anos, o último sítio local de altos-fornos, que transformava o minério de ferro em gusa destinada à indústria metalúrgica, foi fechado e hoje é corroído pela ferrugem.

Desde então, Florange, onde a estrutura se localiza, transformou-se em um dos mais simbólicos frontes da luta de trabalhadores contra a desindustrialização na Europa. Lá, em meio ao desemprego e ao abandono econômico, quem leva vantagem política é a extrema direita liderada pela Frente Nacional de Marine Le Pen. 

A luta pelo emprego em Florange é um dos capítulos dos 25 anos de declínio da indústria em Lorena - e em toda a França e na Europa. O prenúncio de que algo muito ruim se abateria sobre a vida econômica da cidade de 12 mil habitantes situada próximo da fronteira com Luxemburgo e a Alemanha veio em 2009, na cidade vizinha de Gandrange.

Foi quando a Mittal Steel, nome anterior da multinacional que também atua no Brasil, anunciou o fechamento de uma de suas usinas na região e a extinção de 571 de seus 1,1 mil postos de trabalho. O argumento: falta de competitividade. Mesmo que fosse superavitária, a fábrica não conseguia produzir pelo preço das unidades situadas na China, onde os salários e os direitos trabalhistas são inferiores aos da Europa.

O anúncio do fechamento da usina despertou a indignação de sindicatos e setores da opinião pública, pressionando o então presidente Nicolas Sarkozy, líder da direita moderada, a agir. Pressionado, o chefe de Estado propôs ao diretor-presidente da empresa, Lakshmi Mittal, incluir o Estado no capital da companhia, de forma a manter o local funcionando.

Nessa negociação, o bilionário indiano assumiu o compromisso de transferir os funcionários dispensados para Florange e Luxemburgo, onde os trabalhos de siderurgia continuariam. Um ano mais tarde, a maior parte das operações da empresa em Gandrange fechou as portas.

Operador de forno elétrico, Sébastien Schauffelberger, hoje com 36 anos, casado e pai de um filho, foi um dos atingidos. Para salvar seu emprego, aceitou uma transferência para Florange, reciclando-se e mudando de função, para a de operador de energia. Em 2011, seu pesadelo recomeçou, desta vez com o anúncio da interrupção das operações dos altos-fornos da companhia, primeiro por decisão “conjuntural, temporária e provisória”, segundo alegou a empresa, que admitiu um ano mais tarde se tratar de decisão definitiva.

Schauffelberger continua na empresa, mas não recebe aumentos salariais, nem vê evolução em sua carreira. Além disso, vê seus colegas partindo. “O que é inaceitável é que não existe crise na siderurgia. O aço continua sendo muito necessário”, indigna-se. “É o dumping social chinês que devasta a Europa, o que leva Mittal a comprar bobinas na China porque são mais baratas, mesmo que de pior qualidade. Ele não é um industrial, mas um financista que quer cada vez mais lucro.”

Declínio. Para salvar empregos, François Hollande, presidente eleito pelo Partido Socialista (PS), buscou nova solução em Florange. Até a nacionalização foi cogitada, mas nada impediu que 629 novos postos de trabalho fossem extintos na cidade. “Nós fazemos o melhor aço para automóveis do mundo, um produto de alta qualidade, e a empresa ganhava dinheiro, era lucrativa, tinha clientes fiéis. Mas Mittal quis transferir a produção para onde a mão de obra era mais barata e o lucro, maior. Isso chocou as pessoas”, conta Édouard Martin, ex-sindicalista símbolo da resistência em Florange, mais tarde eleito deputado europeu pelo PS. “A desindustrialização não começou com a crise de Florange, mas a cidade é um grande símbolo da globalização desumana”, afirmou.

Como em Gandrange e Florange, 10 mil empregos industriais foram perdidos nos últimos 10 anos em Lorena. O resultado desse processo é que nos últimos 25 anos, a França, uma das maiores potências industriais do mundo, perdeu 1,4 milhão de empregos no setor, de acordo com levantamento do Instituto Nacional de Estatísticas e de Estudos Econômicos (Insee).

Radicalismo. O declínio vem desmoralizando partidos de direita e esquerda - e líderes como Sarkozy ou Hollande - frente à opinião pública. Suas promessas de manutenção do emprego não atraem mais e a indústria segue decaindo.

Hoje, 20,4% da população ativa francesa trabalha na indústria, um porcentual que superava os 23% em 2008. Um declínio semelhante é registrado na agricultura. Longe de ser uma exceção, a França é a expressão de uma regra na Europa. Só no intervalo entre 2008 e 2014, período de crise econômica mundial, o número de trabalhadores da indústria caiu de 27% para 23% em média na UE.

Nessas regiões, o operariado vem abandonando partidos tradicionais. Isso abriu caminho para o crescimento da extrema direita, e com ele o avanço de suas temáticas: a luta contra a imigração, contra o livre-comércio, contra o Euro, contra a União Europeia - temas que também marcaram a campanha pelo Brexit no Reino Unido.

“Cada vez mais é a Frente Nacional que representa o partido dos quebrados, dos abandonados, dos desempregados, substituindo a esquerda sindical histórica”, explica o cientista político Jérôme Fourquet, diretor do departamento de Opinião do instituto de pesquisas Ifop.

Nas últimas eleições municipais, das oito cidades da região operária de Lorena - Hayange, Florange, Uckange, Serémange, Illange, Terville, Thionville e Fameck -, em sete a principal legenda de extrema direita da França, a Frente Nacional, venceu o Partido Socialista. Em Hayange, onde a FN obteve 18,9% a mais de votos que o PS, um ex-sindicalista da Confederação-geral dos Trabalhadores (CGT), Fabien Engelmann, foi eleito prefeito. Ao assumir, uma de suas primeiras medidas de choque foi a criação de uma festa - a Festa do Porco, uma provocação à imigração muçulmana.

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