Ópio garante 30% do PIB do Afeganistão

Agricultores alternam produção de papoula com a de romã; cultivo foi 5 vezes maior do que em 2002

Adriana Carranca, enviada especial de O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2009 | 07h26

Entre os desafios da política externa de Barack Obama para o Afeganistão está o combate ao narcotráfico. O país responde por 93% do ópio, matéria-prima da heroína, produzido no mundo. O cultivo da papoula - a flor de onde se extrai a pasta do ópio - mais do que quintuplicou após a invasão americana. Produzida em 16 das 34 províncias, a safra de 2008 estendeu-se por 157 mil hectares. Em 2002, eram 30,7 mil. As 7,7 mil toneladas de pasta de ópio produzidas no ano passado renderam US$ 3,4 bilhões, ou 30% do PIB do país.   Veja também:   Veja mais fotos da viagem de repórter Afeganistão se converte na guerra de Obama 'Que os EUA preparem os caixões para seus soldados' Taleban impõe seu 'Emirado Islâmico afegão' Ópio garante 30% do PIB do Afeganistão Vício flagela refugiados em Cabul Mulheres afegãs vivem à sombra das tradições tribais Os cenários da guerra que Obama travará no Afeganistão A correlação entre o cultivo da papoula e as áreas dominadas pelos taleban tornou-se evidente - 98% das plantações concentram-se em sete províncias do sul consideradas de "alta instabilidade" pelas forças internacionais. Helmand, província que tem 10 de seus 14 distritos controlados pelos fundamentalistas, responde sozinha por 66% da produção. Apenas 15% das terras afegãs são cultiváveis. Os taleban e os narcotraficantes trabalham em sintonia: os radicais usam os dólares do ópio para financiar a insurgência, as máfias interessam-se em manter o país instável. O programa de combate ao narcotráfico no Afeganistão custa ao Tesouro americano US$ 1 bilhão por ano. Em sua coluna no Washington Post, Richard Holbrooke, enviado de Obama para a região, qualificou o programa de "o mais ineficiente na história da política externa americana". No artigo, ele diz que o narcotráfico fortalece o Taleban e a Al-Qaeda e pouquíssimo tem sido feito contra os "funcionários de alto escalão do governo que estão no centro do imenso comércio de drogas no Afeganistão"."O governo tinha de nos encorajar a parar com o cultivo da papoula, mas Karzai e sua máfia não fazem nada. Eles também estão envolvidos com as drogas", diz Abdul Wahab, agricultor de Kandahar, sul do país. Em sua gleba de um jirib - medida equivalente a um quinto de hectare - a papoula é plantada em fevereiro e colhida em junho. No restante do ano, produz romãs e uvas.No mercadão de Chaman Babrak, em Cabul, não é difícil encontrar produtores que revezam o plantio da papoula com frutas, verduras e legumes. Com o aumento do preços dos alimentos, a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) tenta convencê-los a deixar definitivamente a papoula. Em dezembro, a Usaid e o Ministério da Agricultura afegão promoveram um encontro entre agricultores locais e importadores de romã. "Em média, conseguem US$ 2 mil por acre de romã, enquanto obtêm US$ 1.320 com o ópio", defende Loren Stoddard, da Usaid.Mas os produtores apontam dificuldades para comercializar as frutas. Os agricultores sofrem com a seca, falta de eletricidade e infraestrutura para o armazenamento da produção e o perigo nas estradas. A papoula é uma planta mais resistente e o escoamento é facilitado pela rede de narcotráfico nas fronteiras com o Paquistão e o Irã. "Sofremos muitos perigos hoje nas estradas", conta Wahab, que, para vender romãs, tem de fazer o percurso Kandahar-Cabul duas vezes por semana. Abdullah, Ghafar e outros produtores ao lado de Wahab concordam. "Há assaltos, sequestros e temos problemas com as autoridades. Policiais nos param e pedem propina", dizem. var keywords = "";

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