Oposição a Chávez insiste em renúncia ou eleição

A greve geral convocada por grupos de oposição ao presidente Hugo Chávez vai entrar nesta sexta-feira no 12º dia consecutivo e não há sinais de solução, pelo menos a curto prazo. O presidente da Confederação de Trabalhadores de Venezuela (CTV), Carlos Ortega, declarou que a resistência da oposição "será total", até conseguir o objetivo de tirar Chávez da presidência ou a convocação de eleições para o primeiro trimestre de 2003. Para isso, Ortega, que tem apoio da Fedecâmaras, entidade que agrupa o setor industrial venezuelano, pouco expressivo no país, espera que a Organização dos Estados Americanos (OEA) condene a "repressão" exercida pelo presidente Hugo Chávez. Por sua vez, o governo venezuelano, por meio do embaixador junto à OEA, Jorge Valero, anunciou que a Venezuela solicitará a convocação de uma reunião extraordinária do Conselho Permanente da OEA, onde pretende apresentar a posição do governo frente à crise que vive o país e a pressão de alguns setores para desrespeitar a Constituição. Valero descartou, no entanto, invocar o Artigo 17 da Carta Interamericana da OEA, já que isso significaria reconhecer que o "governo está sendo incompetente para conduzir a crise". O secretário geral da OEA, César Gaviria, declarou, no entanto, que não seria conveniente ainda convocar o Conselho Permanente. "Não gostaria de iniciar uma discussão na OEA antes de que as duas partes (governo e oposição) me escutem. Existe apoio total dos países do Hemisfério ao processo de negociações que vem sendo conduzido e os líderes do Continente já começa a dar sentido de urgência a esse trabalho", explicou Gaviria no seu informe diário, ao final da noite desta quarta-feira. Gaviria alertou também sobre os graves riscos que corre o país, os quais, de acordo com ele, podem transformar-se em traumas dolorosos para os venezuelanos, principalmente depois dos acontecimentos de sexta-feira passada, quando três pessoas morreram e 28 ficaram feridas durante um tiroteio na Plaza Francia de Altamira. Para Gaviria, o clima de intolerância no país está cada vez mais pesado e o ambiente de polarização, cada vez maior. "Estamos ainda em um exercício inevitável de discussões. Por isso, estou disposto a ficar em Caracas quantos dias forem necessários, inclusive até depois do Natal." Gaviria informou ainda que, nesta quarta-feira, o governo venezuelano apresentou uma proposta eleitoral que inclui um plebiscito para agosto de 2003. A oposição insiste, no entanto, em fixar uma data para eleições antes do fim do primeiro trimestre. Na tarde desta quinta-feira, assim como vinha ocorrendo nos últimos dez dias, milhares de pessoas saíram às ruas de Caracas invocando palavras de ordem e pedindo a renúncia de Chávez. Os venezuelanos imitaram os panelaços dos argentinos que, um ano atrás, tiraram o então presidente Fernando de la Rúa da presidência da Argentina. A paralisação concentrou-se, no entanto, na região leste, a mais rica da cidade, que se transformou em uma espécie de reduto da oposição. A chamada cidade velha (centro) e a região oeste de Caracas mostravam calma absoluta e o comércio funcionou normalmente durante o dia, apesar do bombardeio de todos os canais de TV privados, que incitavam a população a sair às ruas. Aos poucos, as ruas de Caracas vêm se transformando em um verdadeiro palco de protestos, que agora não se limitam mais apenas aos panelaços. As janelas dos prédios na capital do país, por exemplo, começam a exibir a bandeira venezuelana em sinal de protesto, por um lado, e de apoio a Chávez, por outro. Com isso, fica claro que o país está dividido, queiram ou não os grupos de oposição a Chávez, que parecem no momento ser maioria. É aí que está o maior risco, na opinião do secretário-geral da OEA. O próprio Gaviria reconheceu que a situação está longe de melhorar. Para ele, não é fácil levar essas discussões em meio a um clima de tensão carregado de angústia e temor, que preocupa ambas as partes. Assim como a oposição adotou a Plaza Francia de Altamira como o palco para fazer seus protestos diários, os venezuelanos favoráveis à permanência de Chávez na condução do país adotaram a Plaza Candelaria, no centro de Caracas, para manifestar esse apoio. Constituição e petróleo A oposição ao presidente Hugo Chávez espera levar adiante mudanças na Constituição do país que permitam a redução do mandato do presidente, de seis para quatro anos, e um segundo turno no processo eleitoral, como no Brasil. A emenda constitucional que vinha sendo preparada desde maio deste ano para promover essas mudanças se encontra quase pronta, mas ninguém da oposição sabe o que fazer com ela. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) não aceita o referendo revogatório marcado para agosto de 2003 estabelecido na Constituição, com o qual Chávez pode não ser confirmado para a presidência do país. O governo, no entanto, se recusa a antecipar o cronograma e a mudar o processo eleitoral, embora, de acordo com o vice-presidente José Vicente Rangel, esteja disposto a negociar. "Queremos dialogar, porém, com a oposição democrática, não com a golpista e terrorista", disse Rangel na TV. Para ele, a antecipação das eleições para o primeiro trimestre do próximo ano é inconstitucional. "Eles pretendem, por meio de um plebiscito, uma espécie de cavalo de Tróia", declarou Rangel. Carlos Fernández, presidente da Fedecâmaras, exortou a população a continuar com a greve, que já afeta grande parte do comércio e da indústria petroleira, a mas importante do país. A Venezuela é o quinto maior exportador de óleo cru do mundo. Embora o Ministério de Energia tenha informado que as exportações de petróleo tenham sido retomadas, o gerente de petróleo da PdVSA (Petróleos de Venezuela), Juan Fernández, negou que a indústria esteja funcionando normalmente. O que há, disse ele, "são elementos de repressão que estão obrigando alguns funcionários a trabalhar 24 horas por dia, confinando-os nas unidades de produção e de refino da companhia". Apesar dessas manobras, acrescentou o funcionário, o governo não conseguiu interromper a greve da companhia. A idéia clara dos grevistas é asfixiar o presidente economicamente. O presidente da PdVSA, Alí Rodrigues, reconheceu que a greve está provocando tremendos danos à economia do país e responsabilizou os grevistas pelas perdas que a estatal vem sofrendo. Rodrigues afirmou, no entanto, que o abastecimento de combustível não será interrompido, já que existem reservas suficientes para abastecer a demanda. Caso contrário, acrescentou, o governo começará a importar gasolina. As informações sobre a PdVSA, no entanto, são cada vez mais desencontradas. O próprio presidente Chávez deixou a situação mais confusa ao declarar ontem à noite que "tudo havia voltado à normalidade" e que o governo estava desmontando um gigantesco plano de sabotagem para "caotizar" o país. Com isso, disse o presidente, querem justificar um golpe de Estado. De celular no ouvido durante uma entrevista à imprensa afoita nas imediações de Miraflores (sede do governo), o presidente afirmava estar tranqüilo e com o espírito calmo e limpo. "Ah, então não há filas, tudo está normal. Te felicito chico (garoto), você é um patriota", disse Chávez ao telefone, diante dos jornalistas, aparentemente conversando com algum funcionário da PdVSA ao outro lado da linha. "Como vêem, tudo está normal." As longas filas em postos de gasolina, tanto em Caracas como em outras regiões do país, desmentem as palavras do presidente. Os grevistas da estatal afirmam que Venezuela está perdendo pelo menos US$ 50 milhões por dia em exportações, por causa da queda de produção de petróleo. Pior, existem riscos de um colapso nas instalações das refinarias por causa da falta de fornecimento de petróleo. O complexo de Paraguaná, a maior refinaria do mundo, continua paralisado porque os capitães dos navios se negam a embarcar o combustível já refinado. Mais grave ainda, a Venezuela corre o risco de receber uma multa de US$ 6 bilhões da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) por não cumprir com os compromissos de embarque de cru. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), a produção venezuelana de petróleo teria caído de cerca de 3 milhões de barris por dia para apenas 1 milhão de barris.

Agencia Estado,

12 Dezembro 2002 | 19h03

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