Oposição a Mubarak se divide antes de eleição

A menos de um mês da disputa presidencial no Egito, bloco islâmico está fragmentado e jovens seculares da Praça Tahrir não têm candidato próprio

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h05

Símbolo da união contra a ditadura de Hosni Mubarak, a Praça Tahrir acabou dividida por nove palcos no último megacomício do Cairo, dia 20. Cada palanque para um público diferente: esquerdistas, cristãos coptas, membros da Irmandade Muçulmana e suas cisões, além de ultrarradicais salafistas. E é assim, fragmentada, que a oposição aos militares disputará as eleições presidenciais, nos dias 23 e 24.

Curiosamente, os jovens seculares que se tornaram a face da revolução de fevereiro de 2011 não são representados por nenhum candidato. Em mais de um ano, não conseguiram se transformar num partido e mesmo Mohamed ElBaradei, diplomata Nobel da Paz que entrou cedo na luta contra Mubarak, ficou fora da disputa. A eleição, portanto, está polarizada entre o campo islâmico, de um lado, e herdeiros do antigo regime, de outro.

Dos 23 políticos que tentaram se candidatar, 10 foram barrados pela Comissão Eleitoral - incluindo o ex-chefe da espionagem de Mubarak, Omar Suleiman, a primeira escolha da Irmandade, Khairat el-Shater, e o salafista Hazem Abu Ismail. O último premiê da ditadura, Ahmed Shafiq, também havia sido proibido de concorrer, mas a comissão recuou e o incluiu na lista final de candidatos, publicada na quinta-feira.

As chances de Shafiq, porém, são baixas. Alguns analistas preveem que a disputa no primeiro turno se concentre em três nomes: dois do bloco islâmico - Mohamed Moursi, da Irmandade, e Aboul Fotouh, que rompeu com o grupo - e um remanescente dos tempos de Mubarak, o ex-chanceler e ex-secretário-geral da Liga Árabe Amr Moussa.

"A divisão entre os islâmicos dá ao campo do antigo regime uma boa oportunidade", disse ao Estado Mohamed Elmenshawy, colunista político do jornal egípcio Ashorouk. Mas, para o analista, a culpa por essa fragmentação é em parte da própria Irmandade, por décadas a mais organizada força de oposição à ditadura militar egípcia.

Em março, o grupo islâmico violou sua promessa de não lançar um candidato à eleição presidencial. O carismático empresário Shater, um dos homens mais ricos do Egito, foi apresentado pela própria Irmandade - e não por seu partido, o Liberdade e Justiça -, ampliando as dúvidas, dentro e fora do Egito, sobre a credibilidade dos compromissos assumidos pela organização.

"Eles apresentaram um candidato à presidência porque têm poder para isso", resume o colunista. "A Irmandade acredita que a junta militar está trabalhando contra a revolução e, por isso, alega que teve de tomar para si a responsabilidade. Além do mais, o grupo sabe que tem chances reais de ganhar."

A Comissão Eleitoral vetou o nome de Shater, sob o argumento de que ele já foi condenado pela Justiça. Em seu lugar, a organização islâmica colocou Morsi, o secretário-geral do Partido Liberdade e Justiça.

Incertezas. Tanto a vitória de um islâmico quanto a de um protegido dos militares poderá levar a mais uma crise institucional no Cairo. Se, por exemplo, Morsi for eleito, a balança da política penderá de vez para o lado dos grupos que defendem a sharia como base da nova Constituição. Somados, Irmandade e salafistas controlam 72% das cadeiras do novo Congresso, eleito no início do ano. A vitória presidencial daria um poder ainda mais desproporcional aos religiosos, para o pavor dos seculares.

Do outro lado, a vitória de alguém como Moussa, diretamente associado à ditadura de Mubarak, provavelmente levará milhares de volta à Praça Tahrir. O diplomata foi chanceler do regime militar por cerca de dez anos e chegou à chefia da Liga Árabe por indicação do ditador que hoje está preso na periferia do Cairo.

Uma fonte diplomática com acesso ao ex-chanceler egípcio afirmou ao Estado que o candidato estuda a possibilidade de nomear o opositor Baradei seu chanceler caso seja eleito. Assim, amoleceria a resistência ao seu nome. "Os dois estão em campos rivais, mas foram diplomatas juntos e se conhecem bem. Não são inimigos."

Islâmico ou cria do antigo regime, o próximo presidente governará em um período crucial: em julho a junta militar deve ser dissolvida e o Egito começará a definir sua nova Constituição.

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