Oposição acusa governo de violar lei eleitoral

Depois de convocar chavistas a 'permanecer nas ruas' até saberem resultado, presidente repreendeu chefe de campanha ao vivo

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2012 | 08h36

CARACAS - No fim da jornada eleitoral de domingo, quando ainda se esperava o resultado oficial do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), o presidente Hugo Chávez interrompeu por telefone, uma entrevista coletiva conduzida por seu chefe de campanha, Jorge Rodríguez, para pedir que ele moderasse a linguagem e evitasse dar sinais da apuração antes do boletim do organismo.

Rodríguez, prefeito do município de Libertador, e um dos mais agressivos membros do chavismo, respondia perguntas de jornalistas lançando insultos à oposição e aos meios de comunicação críticos do governo, sobretudo à TV Globovisión, um sinal de que o comando chavista já tinha sondagens que mostravam seu triunfo.

Em meio a uma das inflamadas respostas, a voz de Chávez surgiu no celular - e foi posta ao vivo na transmissão de TV. "Vamos manter a calma, ter paciência e não violar as regras do CNE", disse Chávez. Peço a Jorge Rodríguez que se mantenha tranquilo e esperemos os resultados com serenidade."

A entrevista continuou, mas o tom do chefe de campanha já era outro. O episódio foi apenas mais um da polarizada campanha eleitoral encerrada ontem. Na véspera, Chávez tinha convocado seus partidários a votar cedo e permanecer "nas ruas até a divulgação dos resultados", causando preocupação entre os dirigentes da oposição, que viram na conclamação uma ameaça de violência. "Não sei bem o que quis dizer com isso", disse o secretário-geral da oposicionista Mesa de Unidade Democrática, Ramón Guillermo Aveledo.

No sábado à noite, após se reunir com o coordenador da equipe de observadores da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), o senador argentino Carlos "Chacho" Álvares, Chávez assegurou que não rejeitaria o resultado a ser anunciado pelo Centro Nacional Eleitoral (CNE). "Reconheceremos a voz do país que será anunciada pelo árbitro", declarou o presidente a jornalistas, no Palácio de Miraflores. Quanto ao chamado aos militantes do chavismo, Chávez afirmou que se tratou de uma convocação para "defender o voto popular, sem violência e com o espírito de celebração cívica".

"A garantia não é a que dá o governo. Muito além do governo, está o Estado, está o Poder Eleitoral. E quem mais dá garantia e fortaleza à democracia venezuelana - a maior garantia de que seja qual for o resultado e a diferença entre uma e outra opção, eles serão reconhecidos - é o povo da Venezuela", disse.

Ao mesmo tempo, o líder bolivariano exigiu da oposição o compromisso de que aceitaria pacificamente o resultado das urnas. Nas últimas semanas, líderes chavistas afirmaram que a campanha do opositor Henrique Capriles Radonski planejava partir para a denúncia de fraude eleitoral para contestar eventual triunfo do governo.

Horas antes, o Comando Carabobo, nome oficial da campanha de Chávez, havia acusado a oposição de utilizar robôs para fazer chamadas telefônicas a eleitores durante a madrugada, nas quais uma voz parecida com a do presidente pedia votos. Segundo o chefe da equipe chavista, Jorge Rodríguez, as chamadas tinham origem no México, "ao custo de vários milhões de dólares".

Em meio à entrevista, Chávez esquivou-se de responder várias perguntas sob a alegação de que isso "poderia violar a lei eleitoral". Mas, em várias ocasiões, enumerou os resultados sociais que vê como positivos de seus 14 anos de governo.Entre as perguntas que deixou de responder estava a questão sobre qual papel assumiria diante de uma eventual vitória da oposição no domingo e sobre se esta seria sua última eleição para a presidência.

O presidente também foi vago quando indagado sobre a gravidade de sua doença. Há mais de um ano, Chávez foi submetido a uma cirurgia para extrair um câncer pélvico em Cuba, mas nunca deu detalhes sobre quais órgãos foram afetados.

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