José Rocha / Reuters
José Rocha / Reuters

Oposição apresenta relatório com supostas provas de fraude nas eleições da Bolívia

Líder opositor Luis Fernando Camacho desafia Evo Morales com entrega de carta de renúncia para que ele assine; jovem morre após confrontos violentos em Cochabamba

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 03h14
Atualizado 07 de novembro de 2019 | 14h49

LA PAZ - O Comitê Nacional de Defesa da Democracia (Conade) da Bolívia, organização que faz oposição ao presidente Evo Morales, apresentou nessa quarta-feira, 6, um relatório que sustentaria as acusações de que houve fraude nas eleições presidenciais do país, realizadas no dia 20 de outubro.

O documento, de 190 páginas, foi elaborado por profissionais bolivianos, residentes no país e no exterior, liderados pelo engenheiro de computação Edgar Villegas.

"É um documento completo, com registros de atas, análises estatísticas, matemáticas e virtuais, a partir do qual se descobre como foi feita a fraude", destacou Manuel Morales Álvarez, porta-voz do Conade.

Segundo ele, a fraude foi "um processo" ocorrido antes e durante as eleições, na transmissão dos resultados preliminares, quando a informação foi interrompida e retomada, e desde "o início da apuração até o término".

Verificações

O documento inclui 19 indicadores como "somas erradas nas atas, dados invertidos, atas em que o Movimento para o Socialismo (MAS - partido de Evo Morales) obtém mais votos do que os registrados para votar, situações irregulares como o registro de atas por meio de fotografias tiradas cinco dias antes do processo eleitoral", citou Álvarez.

Ainda de acordo com o porta-voz, aqueles que inicialmente elaboraram o relatório não tinham o objetivo de "encontrar uma fraude", mas começaram a verificar "varrendo" os resultados preliminares e o cálculo oficial por meio do qual poderiam "descobrir todas essas irregularidades".

"O sistema de segurança do órgão eleitoral foi invadido por dentro, há registros de atas que desapareceram e reapareceram no sistema virtual, e tudo isso documentamos e apresentamos ao povo boliviano", acrescentou.

O relatório foi divulgado nas redes sociais e deve ser enviado a organizações internacionais como as Nações Unidas, embaixadas no país e a Organização dos Estados Americanos (OEA), que tem na Bolívia uma equipe de especialistas trabalhando em uma auditoria eleitoral.

Pressão

O líder opositor regional Luis Fernando Camacho voltou na quarta a La Paz para desafiar novamente o presidente Evo Morales com a entrega de uma carta de renúncia para que ele assine. "Tenho a esperança de que vamos conseguir nosso objetivo", disse ele em um vídeo no Facebook duas horas após pousar no aeroporto de El Alto, perto da capital, procedente de Santa Cruz.

Camacho saiu do aeroporto em um veículo protegido pela polícia, mas não seguiu para a Casa de Governo, onde era esperado por dezenas de jornalistas, e foi para um local não revelado. "Viemos buscar a paz do país, não queremos dividir a Bolívia, queremos uma só Bolívia", afirmou ele, manifestando sua esperança no "fim dos confrontos".

O ministro da Defesa, Javier Zavaleta, disse que Camacho "pode entregar as cartas que quiser" na Casa de Governo, mas não será recebido por Evo.

Camacho, um advogado de 40 anos, se tornou o rosto mais visível da oposição depois das eleições, embora não tenha sido candidato à presidência, ofuscando o ex-presidente Carlos Mesa (2003-2005), segundo mais votado.

Jovem morre após confrontos

Um jovem morreu no hospital em razão de ferimentos sofridos na quarta durante confrontos registrados na região de Cochabamba, centro do país. Esta é a terceira vítima da violência na Bolívia desde os protestos iniciados após as eleições.

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Limbert Guzmán, de 20 anos, havia sido internado com "traumatismo cranioencefálico grave, fratura basal craniana e morte cerebral", segundo os médicos.

"Ele apresentou uma parada cardiorrespiratória, foi imediatamente ressuscitado por mais de 20 minutos e os esforços foram em vão. O paciente faleceu às 20h45" (22h45 em Brasília), informou o boletim médico.

"Expresso meu profundo pesar pelo falecimento do jovem Limbert Guzmán, vítima inocente da violência promovida por grupos políticos que estimulam o ódio racial entre irmãos bolivianos", escreveu Evo em sua conta no Twitter.

Dois homens morreram na semana passada após serem baleados durante um protesto em Montero, na região de Santa Cruz. As manifestações já deixaram 170 feridos no país, de acordo com a imprensa.

Confusão em Cochabamba

Grupos pró e contra Evo se enfrentaram em Cochabamba com paus, pedras e rojões, e alguns estudantes utilizaram uma espécie de bazuca artesanal. O canal de TV Unitel mostrou jovens com escudos de metal para se proteger dos objetos lançados.

Em meio aos confrontos, a sede da prefeitura da vizinha cidade de Vinto, controlada pelo MAS, foi incendiada. A prefeita, Patricia Arce, foi humilhada publicamente pela multidão por transportar camponeses pró-Evo para confrontar os manifestantes.

Ela teve o cabelo cortado, foi pintada de rosa e obrigada a andar descalça por vários quarteirões em meios aos gritos de "assassina". A prefeita foi resgatada pela polícia horas depois.

Sindicatos de camponeses realizaram uma marcha para restabelecer o tráfego em estradas bloqueadas há dias em Cochabamba, e houve confronto com universitários opositores na Praça Bush e em outras zonas da cidade.

Também ocorreram protestos na quarta-feira nas cidades de Santa Cruz (leste), Sucre (sudeste), Tarija (sul) e Potosí (oeste). / EFE e AFP

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