Oposição argentina manobra para ganhar força no interior

Pacto entre prefeito de Buenos Aires, conservador, e deputada ligada à centro-esquerda foi principal movimento de campanha

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente de O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h03

BUENOS AIRES - Os opositores interessados em chegar à presidência da Argentina em 25 de outubro enfrentam um dilema. Precisam aproveitar um momento em que a presidente Cristina Kirchner está acuada por uma crise institucional decorrente da morte do promotor que a investigava, sem parecer oportunistas.

Pesquisa da consultoria Management & Fit divulgada no fim de janeiro mostra que só 1,7% dos eleitores que pensavam em votar no candidato de Cristina mudaram de ideia. O nome mais mencionado para representar o kirchnerismo é o do governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, considerado um conciliador - o que, para a linha do movimento que prega o confronto como estratégia política, é um entrave a sua candidatura.

Pesquisa do instituto Carlos Fara, a primeira após a morte do promotor Alberto Nisman, coloca Scioli em terceiro, com 18% das intenções de voto. O primeiro, com 28%, é o líder da Frente Renovadora, Sergio Massa, um ex-kirchnerista já em campanha. Em segundo lugar, aparece Mauricio Macri (20%), prefeito de Buenos Aires, candidato preferido pelo mercado.

Partiu justamente de Macri, do conservador Proposta Republicana, o movimento mais surpreendente da campanha até agora. Há uma semana, ele anunciou uma aliança com a deputada Elisa Carrió, uma das maiores críticas do governo - na semana passada, ela acusou Cristina de tentar encobrir a morte de Nisma. Para se aliar a Macri, ela rompeu com a coalizão de centro-esquerda Frente Ampla Unem.

"O acordo é uma tentativa de construir una alternativa opositora forte não peronista. Essa frente teria de se fortalecer com outros dirigentes e ganhar peso principalmente fora de Buenos Aires", avalia Fabián Perechodnik, diretor da consultoria Poliarquía, "Acho que o tempo para isso é curto."

"É uma estratégia para aumentar a chance de Macri fora de Buenos Aires e das províncias de Santa Fé e Córdoba", reforça o economista Matías Carugati, da M&F.

Os analistas alertam que pesquisas de intenção de voto a oito meses da eleição e a seis das primárias têm validade relativa, pois o candidato governista tende a crescer quando o apoio da presidente for anunciado - isso se o governo não for envolvido diretamente na morte de Nisman, salientam.

Segundo Perechodnik, a crise de 2001 e 2002, que precedeu o kirchnerismo, garantiu uma parcela fixa de votos ao movimento, estimada em um terço. "Depois daquela crise, o eleitorado saiu de uma matriz de centro-direita (com que Carlos Menem governou 10 anos) para a de centro-esquerda, mais próxima de movimentos progressistas urbanos que pedem mais Estado", explica.

A explicação do economista José Luis Spert para o provável crescimento governista é mais subjetiva. "Argentina é um país peronista, assim como o México é priista. Votar no kirchnerismo vai além do racional."

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