Oposição argentina quer 'julgar'corrupção

Partidos pedem a criação de 'grande tribunal' para os escândalos dos governos Kirchner

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2014 | 02h02

Líderes de partidos de oposição pediram a formação de um grande tribunal para casos de corrupção dos governos de Néstor Kirchner e da presidente Cristina Kirchner. O pedido foi formulado em meio a um clima de tensão causado pela abertura, na sexta-feira, de um processo contra o vice-presidente Amado Boudou, acusado de aceitar subornos para salvar a gráfica Ciccone de multas do fisco argentino, em 2010.

A ideia, apresentada pelo presidente da União Cívica Radical (UCR), Ernesto Sánz, é criar uma comissão especial que investigue os casos de corrupção e entregue os dados à Justiça. O plano conta com o respaldo de diversos partidos da oposição, entre eles o Proposta Republicana, do prefeito portenho Maurício Macri, e da Coalizão Cívica, liderada pela deputada Elisa Carrió, conhecida por denunciar corrupção nos governos de Carlos Menem (1989-99), Fernando de la Rúa (1999-2001) e do casal Kirchner.

O molde desse tribunal de grandes dimensões seria a Comissão Nacional de Pessoas Desaparecidas (Conadep), composta por notáveis, que, entre 1984 e 1985, juntou os dados que a Justiça utilizou para levar ao banco dos réus os integrantes da ditadura militar (1976-83) que haviam sido responsáveis por graves violações dos direitos humanos. Segundo Carrió, esse tribunal teria de adotar um "mani pulite" argentino, em alusão aos processos na Itália em 1992 que levaram à prisão de diversos políticos por corrupção.

Representantes da oposição também pedem o julgamento de empresários vinculados ao governo Kirchner, entre eles o empreiteiro Lázaro Baéz, ex-sócio do casal Kirchner, investigado por lavagem de dinheiro desde março.

Outro empresário kirchnerista na mira da oposição é Cristóbal López, que anos atrás adquiriu parte dos ativos da Petrobrás na Argentina e é suspeito de receber favores da Casa Rosada.

Duas semanas atrás, a Comissão Parlamentar sobre Legislação Penal reuniu-se para debater os projetos de lei que determinavam a imprescritibilidade dos delitos de corrupção. No entanto, não houve quórum, pois os parlamentares kirchneristas não apareceram.

Apoio político. O jornal Clarín, citando fontes do governo, afirmou ontem que a presidente Cristina reuniu-se com seu filho, Máximo, e com o secretário legal e técnico da presidência, Carlos Zannini, para analisar os próximos passos do governo sobre a situação de Boudou na Justiça.

Zannini, que acompanhou o casal Kirchner nos últimos 25 anos, é o "cérebro" jurídico da Casa Rosada. Coincidentemente, Máximo e Zannini são críticos de Boudou, o economista de passado neoliberal que Cristina escolheu para ser seu colega de chapa presidencial em 2011. Cristina, porém, estaria decidida a não abandoná-lo.

Ontem, durante discurso na cerimônia de inauguração de um trecho da Avenida General Paz, Cristina não fez comentários sobre o caso.

Além do caso Ciccone, Boudou é alvo de outras seis investigações, entre elas, uma por suposto enriquecimento ilícito. Boudou foi indiciado com sua namorada, a jornalista Agustina Kampfer, e seu sócio e melhor amigo, o milionário José Maria Núñez Carmona. O patrimônio do vice aumentou 300% nos últimos seis anos.

Boudou também é investigado por tráfico de influência no fornecimento de informações confidenciais a uma consultoria financeira pouco antes da reestruturação da dívida pública em 2010, além do uso de dinheiro dos aposentados estatais para a compra de ações de empresas.

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