Murad Sezer/Reuters
Murad Sezer/Reuters

Oposição ataca ofensiva de Cristina contra 'Clarín'

Dirigente do grupo de comunicação atribui ação do governo a tentativa de silenciar críticos e diz que Estado lidera monopólio

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2012 | 03h07

BUENOS AIRES - Partidos da oposição argentina criticaram na segunda-feira, 24, a nova ofensiva que o governo de Cristina Kirchner lançou no fim de semana contra o Grupo Clarín. O governo - na contramão da Justiça - emitiu no sábado à noite, em meio à transmissão estatal dos jogos de futebol, um vídeo no qual informa que em 7 de dezembro o grupo terá de se desfazer de quase todas as suas estações de TV e rádio para adequar-se à lei de mídia de 2009.

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"Não permitiremos que o governo Kirchner nos leve a um modelo chavista de país", afirmou ontem o deputado Francisco De Narváez, do peronismo dissidente, de centro-direita. Na esquerda, o deputado e diretor de cinema Fernando Solanas, do partido Projeto Sul, sustentou que o governo "promove a escalada de confrontos contra o Clarín e esquece que a última palavra é da Justiça".

A lei de mídia restringe a atuação de empresas privadas de rádio e televisão e abre espaço para a interferência do governo. Além disso, a lei tem efeito retroativo, tornando sem efeito todas as licenças, paradoxalmente renovadas pelo ex-presidente Nestor Kirchner. O Clarín conseguiu frear a aplicação dos pontos mais polêmicos da norma, impetrando uma medida cautelar na Corte Suprema de Justiça.

A Justiça ainda avalia o mérito do caso Clarín, mas Cristina sustenta que a holding "tem data de vencimento", o 7 de dezembro. Nesse dia, segundo ela, "será o fim de calúnias" (em alusão às investigações sobre casos de corrupção do governo Kirchner), já que vence o prazo para que as empresas de mídia vendam os meios de comunicação considerados "excedentes" pela lei. O governo pretende entregar os canais do grupo a outros empresários.

O Grupo Clarín alega que, no pior dos casos, nesse dia começa a valer o prazo de um ano para o desprendimento dos canais de TV e estações de rádio. Os constitucionalistas, em peso, estão do lado da empresa. Martín Etchevers, gerente de Comunicações Externas do Grupo Clarín, disse ao Estado que "o governo deseja silenciar os meios audiovisuais que ainda estão fora do controle oficial".

Cristina qualifica o Grupo Clarín de "monopólio midiático". Mas Etchevers responde: "A hegemonia está do lado oficial. Mais de 80% das rádios e canais de TV dependem direta ou indiretamente do governo".

Segundo ele, "esta é uma guerra do governo contra o Grupo Clarín. Mas a Casa Rosada não faz nada contra as empresas estrangeiras que são donas de canais de TV, o que está proibido na lei de mídia".

"Somente os canais do nosso grupo (TN e Trece) cobriram bem o panelaço do dia 13, que mobilizou milhares de pessoas em todo o país. Alguns canais comentaram a marcha de protesto superficialmente, embora horas depois, enquanto outros ignoraram a manifestação popular", sustenta Etchevers. "Se os canais do Grupo Clarín já tivessem sido silenciados, quem teria noticiado o panelaço?"

O governo Kirchner também está tentando anular na Justiça a fusão Multicanal-Cablevisión, a maior operadora de TV a cabo da Argentina. A operação foi autorizada por Néstor Kirchner em seu último dia na presidência, 9 de dezembro de 2007. Ao longo deste ano, o governo tentou em várias ocasiões pressionar o Grupo Clarín na Justiça.

O jornalista Jorge Lanata, autor de diversas investigações sobre casos de corrupção do kirchnerismo, afirmou que Cristina pretende garantir que a partir do dia 8 de dezembro exista "uma única forma de ver o que está acontecendo no país".

O governo Kirchner pretende destinar em 2013 US$ 1,55 bilhão na máquina de propaganda multimídia que mantém. Na área de infraestrutura de comunicações, US$ 195,6 milhões serão destinados à estatal TV Pública, à Rádio Nacional e à agência estatal Télam, a maior do país. Além disso, US$ 75,4 milhões irão para a TV digital aberta, criada pela presidente Cristina em 2009.

Nos últimos quatro anos o Clarín foi alvo de piquetes de sindicalistas alinhados com o governo que impediram a circulação do jornal, batidas sem justificativas da receita federal e grampos aos telefones e e-mails de seus jornalistas.

Além disso, a dona do Clarín, Ernestina Herrera de Noble foi acusada de ter roubado dois bebês de vítimas da ditadura que se tornaram seus filhos adotivos. Mas exames de DNA comprovaram que os irmãos Noble não eram filhos de desaparecidos, como acusava Cristina por cerca de três anos.

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