Oposição boliviana convoca greve contra mudanças na Constituinte

Quatro departamentos da Bolívia convocaram nesta terça-feira uma greve cívica para a próxima sexta-feira em um novo capítulo das disputas entre governo e oposição na Assembléia Constituinte boliviana. Os oposicionistas reclamam que as regras para votação dos artigos da Constituição, aprovadas em primeira instância na semana passada, favorecem o governo de Evo Morales. Segundo o novo procedimento da Constituinte, as modificações do texto constitucional poderá ser aprovadas por maioria simples (50% dos votos mais um). Como o bloco de Morales no Congresso conta com número de legisladores suficientes para dominar a votação, a oposição resolveu abandonar a Constituinte na semana passada como forma de protesto.A convocação da greve pelos líderes políticos e cívicos dos departamentos de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, governados por partidos de oposição ao governo socialista de Morales, vem acirrar ainda mais as diferenças entre oposição e governo.Após seis horas de deliberações, os líderes regionais avisaram que tomarão novas medidas de pressão caso o governo não atenda às suas reivindicações. A greve foi qualificada como "política" por porta-vozes da administração, que lamentaram a exacerbação dos "ânimos regionalistas". "Nos parece que a greve tem um caráter político que sem dúvida irá afetar o país e que não contribui em nada para as soluções que devem ser buscadas na democracia", disse o vice-ministro de Coordenação com os Movimentos Sociais, Alfredo Rada. Os líderes das regiões, que ocupam dois terços do território boliviano e onde vive um terço da população, reivindicam também que o governo do Movimento Ao Socialismo (MAS) respeite o resultado do plebiscito de 2 de julho. Embora os bolivianos tenham votado contra a concessão de uma maior autonomia para esses departamentos, o regime autônomo foi aprovado por quase dois terços do eleitorado das regiões oposicionistas. BoicoteGermán Antelo, presidente do comitê cívico de Santa Cruz, a região mais próspera da Bolívia, disse que os constituintes são livres para decidir se irão à Assembléia. Na reunião, vários oradores pediram que os constituintes não voltem a Sucre, sede da Constituinte, até que a crise seja resolvida.Outra decisão foi "convocar um diálogo nacional e construir uma saída democrática para a atual crise da Assembléia". Na sexta-feira, o MAS impôs um regimento que, segundo a oposição viola a Constituição atual. Os três principais partidos oposicionistas, a aliança conservadora Poder Democrático e Social (Podemos), o direitista Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e a centrista União Nacional (UN) abandonaram a Constituinte em protesto.Os seguidores de Morales querem que a Constituinte tome decisões por maioria simples, em vez dos dois terços que estabelece a atual Carta Magna e a lei de convocação da Assembléia. Além disso, consideram a Constituinte plenipotenciária, podendo legislar sobre todas as instituições, no que a oposição vê uma tentativa de Morales de dar um "autogolpe". Os líderes regionais denunciaram "a conduta totalitária do governo" e solicitaram a presença de uma comissão de órgãos estrangeiros. Eles vão pedir aos observadores internacionais que garantam o respeito aos direitos humanos e o funcionamento legal da Assembléia.Além disso, anunciaram uma aliança "para a defesa da democracia e do Estado de direito", assim como para fazer cumprir as decisões adotadas esta madrugada.

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