Facundo Arrizabalaga/EFE
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Oposição britânica tenta evitar recesso do Parlamento proposto por Johnson

Premiê enfrenta ações judiciais, revolta da imprensa e de membros do próprio partido contra manobra para forçar Brexit sem acordo

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 19h55

LONDRES - O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, está sendo submetido a um bombardeio de críticas por ter prolongado o recesso parlamentar, medida que foi interpretada como uma forma de forçar a separação abrupta entre Reino Unido e União Europeia, com um Brexit sem acordo.

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Nesta quinta-feira, 29, a oposição e membros rebeldes do partido governista, o Conservador, começaram a articular maneiras de evitar a manobra de Johnson.

Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, o maior de oposição, disse nesta quinta que a estratégia será impedir o recesso por meio do voto no Parlamento, que se reúne na semana que vem.

A ideia ganhou o apoio imediato de vários veteranos do Partido Conservador, como David Lidington, ex-secretério de Defesa, David Gauke, ex-secretário de Justiça, e Richard Harrington, que foi vice-secretário da Indústria no governo de Theresa May.

“Semana que vem será a última oportunidade que o Parlamento terá para retomar o controle do processo e garantir que os deputados tenham voz antes de um Brexit sem acordo”, disse Gauke, repetindo o que havia declarado horas antes o ex-chanceler Philip Hammond.

Na Escócia, um grupo de 75 deputados entrou com uma ação judicial para tentar impedir a manobra de Johnson nos tribunais. “Prolongar o recesso do Parlamento é abuso de poder”, afirmou o advogado Aidan O’Neill. Ações semelhantes foram protocoladas em Belfast, na Irlanda do Norte, e em Londres. 

A decisão de Johnson também provocou protestos de rua. Manifestações foram registradas nas principais cidades do Reino Unido, as maiores em Manchester, Glasgow, Leeds, Liverpool e Londres – marchas estão sendo programadas para sábado, incluindo o bloqueio de ruas e estradas.

Uma petição contra a manobra parlamentar atingiu nesta quinta 1,5 milhão de assinaturas, bem mais do que as 100 mil necessárias para que o tema seja debatido pelos deputados no Parlamento.

O premiê enfrenta ainda uma onda de demissões. O deputado conservador Lord Young deixou o cargo de líder do governo no Parlamento e Ruth Davidson renunciou ao posto de presidente do Partido Conservador na Escócia.

Quem também não poupou o premiê foi a imprensa. Os principais jornais e tabloides estamparam manchetes críticas à manobra de Johnson. O Financial Times, um dos mais tradicionais jornais do Reino Unido, disse que é hora de os partidos “removerem Boris Johnson” do poder. “É hora de os parlamentares derrubarem seu governo com um voto de desconfiança, abrindo caminho para uma eleição na qual a população possa expressar sua vontade.”

Mesmo pressionado, o premiê não dá sinais de arrependimento. Na quarta-feira, Johnson decidiu prolongar o recesso parlamentar até o dia 14 de outubro, diminuindo a janela para que os deputados discutam e aprovem medidas para evitar um Brexit radical, sem acordo com a UE – o prazo para que o Reino Unido deixe o bloco é 31 de outubro.

O Brexit sem um acordo comercial com a UE é considerado uma catástrofe pela maioria dos economistas. Estudo do Banco da Inglaterra aponta que o PIB do Reino Unido será até 3,9% menor em 2034 em relação a como seria se não houvesse Brexit.

Analistas temem ainda uma crise de abastecimento de remédios e alimentos, caso os controles de fronteira sejam restabelecidos.

Fuga em massa de empresas

A saída do Reino Unido da União Europeia vem tendo consequências práticas há algum tempo. Sony, Panasonic, Honda, JP Morgan, Bank of America, Hitachi, Philips, Toshiba e Unilever são algumas das empresas que já decidiram ou pretendem anunciar mudanças para o continente.

Nesta semana, o governo da Holanda disse que 100 empresas já instalaram suas bases no país nos últimos três anos em razão do Brexit. Em Londres, os setores financeiro e de seguros devem ser os mais atingidos – várias companhias já se mudaram para a Europa. / AP, REUTERS e NYT

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