Oposição cresce em reduto chavista

Votação obtida por Henrique Capriles aumentou no bairro 23 de Enero, reflexo da apatia de muitos partidários de Hugo Chávez

FELIPE CORAZZA, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h00

"São os esquálidos. Os traidores. Eles chegaram a quase 40% da população daqui." Assim, Rosário Naranjo define o motivo do aumento na votação de Henrique Capriles no bairro 23 de Enero, um dos mais pobres e, ao mesmo tempo, de população mais organizada e combativa de Caracas. Na eleição da semana passada, o opositor conseguiu aumentar seu eleitorado em pouco mais de 2 mil votos na região.

Em números absolutos, não ultrapassou Nicolás Maduro. Pelas características do bairro, no entanto, o chavismo vê com preocupação o crescimento dos rivais na região. Construído no governo do ex-ditador venezuelano Marcos Pérez Jiménez (1953-1958), o bairro foi batizado inicialmente de 2 de Dezembro, data em que o general tomou o poder. Os próprios moradores mudaram o nome para a data em que Jiménez foi retirado da presidência por uma rebelião cívico-militar, um 23 de janeiro.

A revolução virou inspiração para Chávez, que também criou seu movimento cívico-militar. O "comandante eterno" está sepultado no Quartel da Montanha, que fica no 23 de Enero. Outro morador, que pede para ser identificado apenas como "Luis", dá outra explicação para o desempenho da oposição. Empregado de uma loja em um dos bairros mais ricos da cidade, Luis diz que sempre votou contra Chávez, mas seus parentes mais próximos sempre foram chavistas. "Dos oito parentes chavistas que moram aqui, três nem foram votar e uma tia votou em Capriles, mas só contou para mim."

Ele diz que uma das causas principais é o abandono do bairro após a eleição de outubro. "Ficou tudo nas mãos dos coletivos", afirma. Ele prefere não dizer o sobrenome com medo de represálias. "Os moradores que não votam no chavismo não o dizem, porque sabem que podem perder benefícios."

O temor é reforçado por comentários de outros moradores. Um deles diz que não ouviu panelaços no bairro nos primeiros dias de manifestação. O protesto foi convocado por Capriles contra a proclamação de Maduro como presidente, enquanto a oposição exigia uma auditoria nos votos. "As pessoas que gostam do outro (Capriles), vão bater panelas olhando pela janela e vendo armas?", questionou.

Rosário, no entanto, disse ter ouvido alguns vizinhos participando do protesto opositor. "Mas tocamos tanta música, soltamos tantos fogos, que eles desistiram. Não conseguiam nem ouvir o próprio barulho".

Os "coletivos", grupos chavistas que organizam parte dos trabalhos sociais e comunitários no bairro, têm força decisiva. Ajudam a população a conseguir melhorias, buscam parcerias com empresas privadas para empregar moradores, mas estão armados e juram vigilância para defender a pátria e o socialismo.

Em uma padaria comunitária criada por um desses grupos, moradores podem comprar alimentos até 80% mais barato. Para alguns, como crianças carentes e portadores de deficiência, os produtos são gratuitos. Parado na entrada, um senhor comenta o resultado das urnas e as medidas de Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional, contra os opositores após os protestos que deixaram oito mortos.

Cabello passou a negar o direito à palavra à oposição e destituiu todos os presidentes de comissões que não reconhecessem Maduro como presidente legítimo. Na porta da padaria, o morador concorda. "Chega de golpismo. Viu o que fizeram na segunda-feira? Foi o que fizeram em 2002. Mas, desta vez, não deixamos. Cabello está certo. É necessário endurecer."

A presença de coletivos armados pode ser um problema para Maduro. Após os incidentes violentos nos protestos de oposição, o presidente relatou um encontro que teve com "motorizados" - motoqueiros das comunidades - do 23 de Enero. Eles teriam se oferecido para pegar em armas e "libertar a Praça Altamira", onde se concentravam manifestantes opositores - a proposta teria sido rejeitada por Maduro.

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