Oposição cresce em redutos chavistas

Insatisfação com o presidente Nicolás Maduro coloca governo em xeque em distritos pobres de Caracas, como La Pastora e 23 de Enero

LUIZ RAATZ, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h07

A venezuelana Dayana Hernández, de 25 anos, tem um segredo. Poucas pessoas no bairro onde ela nasceu, o famoso distrito chavista 23 de Enero, na zona oeste de Caracas, sabem que ela votou em Henrique Capriles, candidato da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática, nas últimas duas eleições presidenciais na Venezuela.

Ela também oculta de amigos e parentes que frequenta atos convocados pela oposição contra o governo e, quando visita os pais no bairro, evita usar roupas e adereços que possam vinculá-la à oposição.

Um ano depois da morte do presidente Hugo Chávez, a revolução bolivariana está numa encruzilhada. A economia vai mal, com uma inflação em 12 meses de 56% e uma escassez de quase três em cada dez produtos da cesta básica. Após uma nova derrota nas urnas nas eleições municipais de dezembro, parte da oposição optou por sair às ruas para protestar contra o governo. Desde o começo de fevereiro, 20 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas em manifestações espalhadas por todo o país.

O governo atribui os protestos a uma facção da direita venezuelana que tenta derrubar o presidente Nicolás Maduro por meio de um golpe de Estado e diz que os protestos ocorrem principalmente na zona leste de Caracas, reduto tradicional da oposição.

Capriles, que no começo dos protestos era contra a estratégia, conhecida como "A Saída", argumenta que é necessário atrair gente de fora das classes média e alta, redutos tradicionais do antichavismo.

Esse é o caso de Dayana. Promotora de vendas, ela compareceu a uma megamanifestação da oposição no dia 22, no distrito de Petare, que abriga parte da favela de mesmo nome, a maior da Venezuela. "Já fui roubada duas vezes no 23 de Enero quando fui visitar meus pais. Sempre que vou lá, tiro o boné (da campanha de Capriles) e me visto de vermelho para que não me incomodem", disse ao Estado. "As últimas eleições não foram justas. Há muita gente insatisfeita, mas são 3 milhões de funcionários públicos e dificilmente eles votam contra o chavismo por medo de represália."

Dois dias antes, durante um protesto em Altamira, na zona leste de Caracas, a militante da oposição María Teresa Rodríguez disse que no bairro de La Pastora, outra região popular, na zona oeste de Caracas, a insatisfação também está crescendo. "Os moradores dos morros têm de descer e fazer os panelaços também", afirmou.

Para o cientista político Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela, a oposição vem ganhando espaço em bairros populares, ainda de que forma lenta. Por isso, o esforço de Capriles de convencer a população mais pobre de que a crise econômica é culpa do governo. "A votação da oposição aumentou nesses distritos nos últimos anos", disse Romero. "Por isso, é importante para a oposição tentar descreditar a narrativa do governo de que os protestos são algo localizado nas partes mais nobres."

Segundo o Conselho Nacional Eleitoral, nas últimas três eleições presidenciais, a votação da oposição cresceu constantemente em 23 de Enero e La Pastora. No primeiro, em 2006, o opositor Manuel Rosales teve 24% dos votos. Capriles teve 33% contra Chávez, em 2012, e 38% contra Maduro, em 2013. No segundo, a oposição obteve 38%, em 2006, 47%, em 2012, e venceu com 51%, em 2013. No ano passado, a vantagem de Maduro sobre Capriles foi de apenas 1,5 ponto porcentual - a vitória mais apertada de um candidato chavista à presidência desde 1998.

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