Oposição critica ordem de Chávez a militantes

Presidente convocou chavistas a 'permanecer nas ruas' até que resultado da eleição fosse divulgado pelo conselho eleitoral

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2012 | 08h41

Um chamado do presidente venezuelano, Hugo Chávez, para que seus partidários votassem cedo e permanecessem "nas ruas até a divulgação dos resultados" causou preocupação entre os dirigentes da oposição, que viram na conclamação uma ameaça de violência. "Não sei bem o que quis dizer com isso", disse o secretário-geral da oposicionista Mesa de Unidade Democrática, Ramón Guillermo Aveledo.

"Até agora, temos visto uma jornada tranquila, esperamos que seja assim até o fim do dia para que a Venezuela tenha nesta segunda-feira um novo amanhecer. Recomendamos aos nossos eleitores que votem e vão para suas casas, esperar o resultado com tranquilidade", acrescentou Aveledo, minutos depois de votar.

No sábado à noite, após se reunir com o coordenador da equipe de observadores da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), o senador argentino Carlos "Chacho" Álvares, Chávez assegurou que não rejeitaria o resultado a ser anunciado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE). "Reconheceremos a voz do país que será anunciada pelo árbitro", declarou o presidente a jornalistas, no Palácio de Miraflores. Quanto ao chamado aos militantes do chavismo, Chávez afirmou que se tratou de uma convocação para "defender o voto popular, sem violência e com o espírito de celebração cívica".

"A garantia não é a que dá o governo. Muito além do governo, está o Estado, está o Poder Eleitoral. E quem mais dá garantia e fortaleza à democracia venezuelana - a maior garantia de que seja qual for o resultado e a diferença entre uma e outra opção, eles serão reconhecidos - é o povo da Venezuela", disse.

Ao mesmo tempo, o líder bolivariano exigiu da oposição o compromisso de que aceitará pacificamente o resultado das urnas. Nas últimas semanas, líderes chavistas afirmaram que a campanha do opositor Henrique Capriles Radonski planejava partir para a denúncia de fraude eleitoral para contestar eventual triunfo do governo. A campanha de Capriles qualificou a denúncia como "ridícula".

Horas antes, o Comando Carabobo, nome oficial da campanha de Chávez, havia acusado a oposição de utilizar robôs para fazer chamadas telefônicas a eleitores durante a madrugada, nas quais uma voz parecida com a do presidente pedia votos. Segundo o chefe da equipe chavista, Jorge Rodríguez, as chamadas tinham origem no México, "ao custo de vários milhões de dólares".

A campanha de Capriles acusou Chávez de violar o período de silêncio eleitoral com a entrevista coletiva concedida no palácio na véspera da eleição - para jornalistas estrangeiros, mas transmitida ao vivo pela rede de TV estatal. O juiz eleitoral Vicente Díaz, o único dos cinco membros do corpo judicial do CNE que vota em favor dos pedidos da oposição, por meio de sua conta no Twitter, afirmou que defenderia a imposição de "sanções previstas na lei" à candidatura do presidente.

Em meio à entrevista, Chávez esquivou-se de responder várias perguntas sob a alegação de que isso "poderia violar a lei eleitoral". Mas, em várias ocasiões, enumerou os resultados sociais que vê como positivos de seus 14 anos de governo.

Entre as perguntas que deixou de responder estava a questão sobre qual papel assumiria diante de uma eventual vitória da oposição no domingo e sobre se esta seria sua última eleição para a presidência.

O presidente também foi vago quando indagado sobre a gravidade de sua doença. Há mais de um ano, Chávez foi submetido a uma cirurgia para extrair um câncer pélvico em Cuba, mas nunca deu detalhes sobre quais órgãos foram afetados.

Capriles passou o sábado correndo no Monte Ávila e não fez declarações públicas até o momento de sair para votar, ontem.

Forças Armadas. O ministro da Defesa, general Henry Rangel, alertou no fim de semana que as Forças Armadas estão "capacitadas, equipadas e motivadas para cumprir uma vez mais com a nobre missão de preservar a democracia na Venezuela".

"Creio que os venezuelanos darão mostra, mais uma vez, de sua maturidade política e o processo se levará a cabo com normalidade", declarou Rangel. "Mas aqueles focos que tentem de alguma maneira subverter as coisas na intenção de mudar os acontecimentos serão reduzidos pelas forças de ordem, de segurança e, talvez, pelo povo mesmo. (Serão alvo) daqueles chamados a evitar que atitudes que possam acender a faísca da violência sejam possíveis. A esses grupos minúsculos que andam articulando ações violentas, peço, como militar, que deponham suas intenções."

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