REUTERS/Jorge Cabrera
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Oposição de Honduras surpreende e assume liderança em eleição presidencial

Com 57% das urnas apuradas, esquerdista Salvador Nasralla tem 45% dos votos contra 40% do atual presidente, Juan Orlando Hernández, contrariando pesquisas que indicavam uma reeleição tranquila para o atual mandatário

O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2017 | 10h45

TEGUCIGALPA - O candidato opositor esquerdista Salvador Nasralla lidera a apuração dos votos em Honduras, superando o atual presidente Juan Orlando Hernández, que tenta a reeleição, de acordo com os resultados parciais divulgados durante a madrugada desta segunda-feira, 27, após uma longa espera.

Eleitores hondurenhos vão às urnas; atual presidente é favorito

O primeiro boletim do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), divulgado 10 horas após o fim da votação e com 57% das urnas apuradas, mostra Nasralla com 45,17% dos votos, contra 40,21% de Hernández. Durante a madrugada, os dois candidatos reivindicaram a vitória. 

Minutos antes da apresentação dos resultados parciais, Hernández declarou a seus simpatizantes: "Estamos na frente por sete pontos". Ao mesmo tempo, membros da Aliança de Oposição Contra a Ditadura, partido de Nasralla, seguiram para a sede do TSE para exigir resultados.

Com bandeiras vermelhas, os ativistas gritavam "sim, foi possível" e "fora JOH", as iniciais do presidente Hernández.

O processo eleitoral foi marcado pela polêmica postulação de Hernández à reeleição, proibida pela Constituição, mas que foi possível graças a uma decisão do tribunal constitucional, e o temor de fraude do governo. Com os primeiros resultados, a situação parece mudar.

Pouco depois da divulgação dos dados pelo TSE, Hernández enviou uma mensagem de áudio aos seguidores ressaltando justamente que o resultado não é final. "O dado do tribunal não é conclusivo porque registra apenas os resultados das principais cidades do país, isto representa apenas 20% dos votos. Os 80% restantes nos favorecem e temos que ser cuidadosos, pacientes e levar o processo até o fim", disse Hernández, de 49 anos.

O esquerdista Nasralla, no entanto, insistiu na vantagem sobre Hernández. "Como a tendência não muda, posso dizer a vocês que sou o novo presidente de Honduras", afirmou eufórico Nasralla, ao lado do ex-presidente Manuel Zelaya, destituído em 2009 e coordenador da coalizão opositora.

A tensão pela longa espera e após as respectivas declarações aconteceram após um dia de votação relativamente tranquilo, no qual seis milhões de hondurenhos deveriam escolher seus representantes para os próximos quatro anos.

Nasralla, um jornalista de 64 amos, convocou a população a um evento na capital do país nesta segunda-feira para comemorar sua vitória. Antes, o candidato havia solicitado uma mobilização contra uma possível fraude.

Ao todo, nove candidatos disputaram a presidência, mas segundo as pesquisas só três tinham chances de vitória.

Além de Hernández e Nasralla, o outro candidato de peso era o acadêmico Luis Zelaya do Partido Liberal (PL, direita), que aparece em 3º com 13,77% dos votos no primeiro boletim do TSE. Nasralla e Zelaya alertaram que não reconheceriam uma reeleição de Hernández, por considerá-la inconstitucional.

Os hondurenhos também votaram para escolher 128 deputados, 298 autoridades municipais e 20 representantes do Parlamento Centro-Americano.

O historiador e sociólogo Marvin Barahona, da Equipe de Reflexão, Pesquisa e Comunicação (Eric), alertou que a possível reeleição de Hernández poderia despertar um clima de confronto no país. 

"A candidatura de Juan Orlando Hernández não é apenas controversa, tem uma alta dose de ilegalidade, o que significa que os resultados podem provocar para mais confrontos, especialmente se eles beneficiarem o partido no poder, porque serão classificados por diversos setores como fraudulentos", opinou Barahona.

O Conselho de Especialistas Eleitorais na América Latina (Ceela) descartou uma fraude e elogiou a grande participação na eleição hondurenha. 

Surpresa

Uma vitória de Nasralla seria um choque para os EUA, que veem Hernández como um aliado confiável na luta contra o tráfico de drogas, as gangues e a imigração. Washington tem laços militares antigos com Honduras e poucos aliados ideológicos entre os atuais presidentes de nações da América Central.

A tentativa de Hernández de conquistar um segundo mandato provocou divisões no país. Honduras ainda luta para se recuperar dos efeitos de um golpe de Estado de 2009 ocorrido depois que o ex-presidente Manuel Zelaya, aliado do falecido líder venezuelano Hugo Chávez, propôs um referendo sobre a eliminação do limite de mandatos.

Zelaya estava ao lado de Nasralla na manhã desta segunda. Como coordenador e, segundo muitos, verdadeiro chefe da aliança de oposição, Zelaya será um dos maiores beneficiados se Nasralla vencer.

Zelaya foi afastado devido aos temores de que tramava para adotar políticas socialistas em Honduras, onde uma classe empresarial conservadora detém enorme poder. Os EUA mostraram dificuldade em lidar com o golpe, e Zelaya continua assombrando autoridades americanas e muitos da elite hondurenha. / REUTERS, EFE e AFP

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