Oposição desenha tática para superar máquina chavista e comoção popular

Condições desiguais. Após hesitação, Capriles deve ser registrado hoje como candidato presidencial para enfrentar Maduro, herdeiro político de Chávez, em 14 de abril; denúncias de que governo se beneficia de vantagens ilegais rondarão campanha

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2013 | 02h11

A toque de caixa, para cumprir os prazos do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) que anunciou a próxima eleição presidencial para 14 de abril, a oposição venezuelana preparava ontem sua estratégia de campanha. A inscrição dos candidatos, pelo cronograma estabelecido pelo CNE, encerra-se hoje às 14 horas (15h30 de Brasília) e o governador de Miranda, Henrique Capriles, anunciaria ontem à noite sua decisão de candidatar-se.

A Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão de partidos de oposição, decidiu no sábado à noite "oferecer" a candidatura a Capriles, que foi derrotado por Chávez nas eleições presidenciais de 7 de outubro, mas obteve 44% dos votos. Capriles, porém, mostrou certa hesitação em assumir o posto de candidato sob a alegação de que as instituições judiciais e eleitorais da Venezuelas são controladas pelos chavistas e não coíbem o uso da máquina do Estado em favor da candidatura governista nem estão em condições de garantir uma disputa justa.

Como exemplos disso, dirigentes da MUD usam a sentença do Tribunal Supremo de Justiça da quinta-feira, que deu ao presidente encarregado, Nicolás Maduro, autorização para que ele seja candidato sem a necessidade de separar-se do cargo, e os prazos apertados estabelecido pelo CNE.

"A MUD não vai faltar ao país", declarou o secretário-geral da aliança, Ramón Guillermo Aveledo, ao anunciar a oferta da vaga a Capriles. "Entendemos perfeitamente que há condições de vantagem ilegal e desigualdade pelo sistema que o regime se empenha a impor."

O dirigente assegurou que a MUD cobrará a isenção do CNE, "de modo sereno, mas com firmeza". "Equivocam-se os que pensam que não enfrentaremos e venceremos esses desafios", prosseguiu Aveledo, referindo-se aos rumores que circularam na sexta-feira e no sábado, segundo os quais a oposição poderia boicotar a eleição que determinará a sucessão do presidente Hugo Chávez, morto na terça-feira após quase dois anos de luta contra o câncer.

Pela Constituição, a eleição deveria ser realizada no prazo de 30 dias após a declaração de ausência permanente do presidente. Mas técnicos do CNE concluíram que o 14 de abril era a data mínima para a organização da votação. Para isso, será considerado o padrão eleitoral utilizado na eleição de 7 de outubro - ou seja, eleitores que se registraram posteriormente continuarão sem direito de voto. A lista relaciona 18.903.143 eleitores habilitados, incluindo os 100.495 inscritos para votar no exterior. Os mesários serão os mesmos convocados em outubro.

"O abuso do aparato estatal em favor do partido do governo sempre esteve presente nas últimas eleições na Venezuela, mas talvez esse não fosse o único motivo da hesitação de Capriles em aceitar a candidatura", disse ao Estado o analista político Juan Villalba, que já foi consultor da MUD. "Há um consenso de que essa será uma eleição emocional, que levará milhões de chavistas às urnas para oferecer uma vitória ao líder morto e lutar pela continuidade de sua revolução. Se Maduro é o presidente encarregado, em consequência da morte de Chávez, do lado da oposição, Capriles seria o 'derrotado encarregado' para essa eleição."

Maduro, por seu lado, já em plena campanha, discursou ontem por duas horas no congresso do Partido Comunista Venezuelano (PCV) - com transmissão direta pelos quatro canais do sistema de comunicação estatal.

"Eu não sou Chávez, falando estritamente da inteligência, carisma, força histórica. capacidade de liderança, de mando, da grandeza espiritual de nosso comandante", discursou Maduro. "Mas sou chavista e vivo e morro por ele. Em vida e agora, neste novo plano que está. Ninguém deve exigir de Nicolás Maduro que seja Chávez. Não. Sou chavista, filho de Chávez e assim me sinto."

Maduro voltou a pedir unidade à militância do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) "para poder construir a pátria sonhada por (Simón) Bolívar e Chávez". "A única forma de que todos sejamos Chávez é que estejamos juntos, unidos. Todos juntos somos Chávez, divididos não somos nada."

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