Oposição diverge em tática sobre adiamento de posse

Cenário: Rodrigo Cavalheiro

O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2012 | 02h02

Henrique Capriles, líder da oposição venezuelana, surpreendeu na segunda-feira ao defender a possibilidade de adiamento da posse de Hugo Chávez, que o derrotou em outubro por uma diferença de 1,5 milhão de votos. "Penso que não perde a condição de presidente eleito a pessoa que não possa tomar posse exatamente no dia estabelecido", afirmou Capriles, acompanhando o discurso da cúpula chavista e discordando dos líderes da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática, que já usam a palavra golpe para definir a postergação.

Tentando mostrar espontaneidade, Capriles recorreu a seu próprio exemplo. "Imaginem que vou tomar posse como governador e neste dia tenho um problema no pé e não posso caminhar. Então perco a condição de eleito? Esse jamais foi o espírito da legislação", disse Capriles, reeleito dia 16 governador do Estado de Miranda, na única grande vitória da oposição. Chávez tinha nomeado seu ex-vice-presidente Elías Jaua para derrotar Capriles, na certeza de que isso acabaria com a oposição.

Em um sinal de que suas declarações foram estudadas, após uma semana de silêncio sobre o tema, o líder opositor acrescentou argumentos jurídicos para dar mais tempo a Chávez: "A própria Constituição tem as respostas. Aí se aplicaria inicialmente uma ausência temporária e, depois, o que estabelece a Constituição para a falta absoluta". A ausência temporária seria de 90 dias, prorrogável por outros 90 dias. Se ocorrer uma ausência absoluta - decretada pela Assembleia em caso de morte, renúncia, destituição e inabilitação física ou mental - seria convocada eleição em 30 dias, diz a Constituição.

A dissonância repentina entre Capriles e seus pares tem tom de uma jogada pela sucessão. Segundo três analistas ouvidos pelo Estado, convém ao chavismo eleições rápidas para aproveitar a comoção em torno do presidente, eficiente na eleição regional, e a união em torno de sua doença. Quanto mais tempo durar a discussão em torno da saúde do presidente e da sucessão, maior a probabilidade de divisão no chavismo - há uma clara disputa entre Maduro, nomeado sucessor, e o presidente da Assembleia, Diosdado Cabello, ligado aos militares.

Ao apoiar o adiamento, Capriles faz uma aposta pessoal na implosão do chavismo. Mas também joga que a oposição - tão heterogênea que vários candidatos derrotados por ele nas prévias voltaram a se apresentar como presidenciáveis antes de sua vitória em Miranda - seguirá unida em torno dele. Pelo menos até a eleição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.