EFE/EPA/STR
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Oposição ignora ameaça do Exército e protesta contra governo da Bielo-Rússia

Mesmo diante das advertências dos militares, manifestantes ocuparam as ruas da capital Minsk para exigir a libertação de presos políticos e a renúncia de Alexander Lukashenko

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2020 | 03h00

MINSK - Milhares de manifestantes ignoraram as ameaças de uso da força por parte do Exército e voltaram às ruas de Minsk, capital da Bielo-Rússia, para exigir a renúncia do presidente, Alexander Lukashenko, que governa o país há 26 anos. No domingo, 23, Lukashenko chamou os opositores de “ratos” e apareceu na TV estatal segurando um fuzil e vestindo um colete à prova de balas.

Há duas semanas, o presidente bielo-russo, conhecido no mundo diplomático como “o último ditador da Europa”, foi reeleito para seu sexto mandato com cerca de 80% dos votos. A opositora, Sviatlana Tikhanovskaia, não reconheceu a derrota e fugiu para o exílio na Lituânia. 

Imediatamente, a população se mobilizou nas ruas das principais cidades do país, acusando o presidente de fraudar a eleição, exigindo a libertação dos presos políticos e o fim do regime. As manifestações contra o governo ganharam uma dimensão tão inesperada que nem mesmo as forças de segurança têm sido capazes de dissipá-las – mais de 7 mil pessoas foram presas, 200 ficaram feridas e 4 morreram, segundo dados oficiais. 

No domingo, a mesma cena se repetiu. Milhares de pessoas se reuniram no centro de Minsk com bandeiras brancas e vermelhas, as cores da oposição. “Se ele realmente ganhou as eleições (com 80% dos votos), por que tanta gente está indo para as ruas protestar contra ele?”, questionou Ievgeni, um jovem de 18 anos. 

“Lukashenko quer que todos se dispersem e vivam como antes da eleição. Mas nada voltará a ser igual”, afirmou Nikita, manifestante de 28 anos. Enquanto alguns gritavam “Liberdade”, outros pediam “Lukashenko na prisão”. Nos arredores do palácio presidencial, foram montadas barricadas da tropa de choque, com canhões de água e veículos de segurança. No fim do dia, porém, o protesto acabou de maneira pacífica.

O grau de adesão da população mostra que os manifestantes parecem ter perdido o medo da repressão. Pouco antes, o Ministério do Interior havia alertado contra as manifestações “ilegítimas” e pedido “sensatez” aos cidadãos. Já o Ministério da Defesa ameaçou lançar o Exército – e não a polícia – contra as marchas, em caso de escalada da violência. 

No domingo, Tikhanovskaia pediu que os protestos continuem. “Estou muito orgulhosa dos bielo-russos que, após 26 anos de medo, estão prontos para defender seus direitos”, disse a líder da oposição.

Lukashenko afirma que as manifestações são organizadas por outros países que teriam interesse em vê-lo destituído e acusa a Otan de fazer manobras militares dentro de suas fronteiras. No domingo, ele surgiu em imagens de TV descendo de um helicóptero na residência oficial, carregando um fuzil e vestindo um colete à prova de balas. 

O último ditador da Europa nunca enfrentou protestos dessa magnitude, apesar de ter vencido com folga todas as seis eleições presidenciais desde 1994. Agora, porém, a situação de Lukashenko é mais complicada, porque a Bielo-Rússia vem sendo duramente afetada pela pandemia – e ignorar o coronavírus, como o presidente fez no início, não ajudou.

Quando os primeiros casos foram registrados na Europa, em março, Lukashenko, um agrônomo de formação, chamou a pandemia de “coronopsicose”. Ex-diretor de um kolkhoz, uma fazenda coletiva do período soviético, nos anos 80, ele sugeriu à população lavar as mãos com vodca e tomar de 40 a 50 mililitros da bebida para matar o vírus. 

“Melhor morrer de pé do que viver de joelhos”, disse o autocrata, no dia 31 de março. “O melhor antiviral é praticar um esporte no gelo, além de sauna, uma ou duas vezes por semana. Os chineses nos disseram que o vírus morre em temperaturas acima de 60ºC.” O resultado do descaso se reflete no número de contaminações. O país registra mais de 70 mil casos de covid-19, um dos índices mais altos da Europa. / REUTERS e AFP

 

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