Oposição joga última cartada para tirar Chávez do poder

Os grupos de oposição ao presidente Hugo Chávez, que ontem conseguiram realizar uma das maiores concentrações de protesto jamais vistas no país e a qual acabou sendo chamada de ?toma de Caracas?, vai jogar esta semana uma de suas últimas cartadas para derrubar o governo por meio do grito. Na tarde de domingo, o presidente recebeu apoio de milhares de profissionais liberais que se concentraram na Praça Venezuela, em Caracas.A Confederação dos Trabalhadores de Venezuela (CTV), a Fedecâmaras (empresários) e alguns partidos de oposição, clara e maciçamente apoiados pelos meios de comunicação, estão organizando uma marcha dos quatro cantos da Capital em direção a Miraflores, sede do governo.O dia para mostrar a força desses setores às portas do despacho do presidente ainda não foi definido. Força, esse grupos já mostraram que têm neste sábado em Altamíra, no município de Chacao. Por isso, tanto a CTV como a Fedecâmaras anunciaram na noite de domingo que a greve geral convocada pelas duas entidades há duas semanas não será interrompida.Comunicado da oposiçãoEm comunicado conjunto, Carlos Ortega, presidente da CTV, e Carlos Fernández, presidente da Fedecâmaras, lido em rede de televisão, pediram que a população bloquei ruas, avenidas e estradas em todo o país entre as 6h e 13h (horário local) desta segunda-feira. Foi convocado ainda uma nova concentração contra o presidente Chávez a partir das 14h (horário local), também nesta segunda-feira, na Avenida Libertador, em Altamíra, uma das regiões mais favorecidas de Caracas. ?Venezuela vencerá?, leu o comunicado Ortega em tom desafiador.Fernández acusou o presidente de ser o responsável pelo confronto verbal e físico entre os venezuelanos e criticou o discurso de Chávez no programa ?Alô Presidente?, praticamente o único canal do governo para veicular sua posição, já que os canais privados de TV não cedem espaço algum ao presidente e membros de seu gabinete. ?O senhor não é o Estado, não é o poder absoluto, por isso reafirmamos a continuidade da greve?, disse Fernández. O empresário criticou também a ?militarização? de PDVSA (Petróleos de Venezuela) no Lago de Maracaibo. Chávez mandou a Marinha do país para operar os navios petroleiros nessa região.De qualquer forma, esta segunda-feira marcará a terceira semana consecutiva de greve em ambiente carregado de angústia e temor, já que a paralisação é apenas parcial, porque mais da metade da população economicamente ativa vive da economia informal. Para comer, esse setor precisa trabalhar. As empresas privadas e o comércio, às vésperas do Natal, também querem voltar à normalidade. Mas a oposição insiste em provocar uma asfixia econômica ao governo e tentar a renúncia de Chávez ou, pelo menos, a antecipação das eleições.Daí as duas estratégias que vem sendo montadas pela oposição, que diz ser democrática. Primeiro, o golpe militar. Para a classe média, a intervenção militar é a única saída. Como isso não está ocorrendo, mesmo depois dos distúrbios na Praça Altamíra, em 6 de dezembro, quando morreram três pessoas que foram alvo de um atirador, a outra saída é crise e anarquia social por alguns dias, o que provocaria uma explosão social estimulada, que, depois, acabaria sendo condenada interna e externamente para tirar o presidente do poder.Apelo até para a santaA oposição diz que conta ainda com apoio de uma santa para derrubar o presidente. Na Praça Altamíra, onde um grupo de 140 militares se encontram entrincheirados, transformando esse espaço público em base para tramar a estratégia contra Chávez, foi erguido uma altar onde descansa a imagem da Rosa Mística, uma virgem cultuada na Itália, e, segundo os militares, é sua protetora.A Rosa Mística chegou a Venezuela há cerca de quatro anos e se transformou em um tipo de culto obrigatório da classe média e média alta. De abril deste ano para cá, a imagem da virgem é guardada nas casas, onde são feitas orações. Semana atrás da outra, a Rosa Mística é levada de casa em casa para o mesmo ritual. Para essas pessoas, a virgem está chorando sangue e, de repente, começaram a aparecer muitas imagens da Rosa Mística em toda Caracas. Imagens estas que também estariam chorando sangue.E por que choram sangue?, perguntou a Agência Estado a estas senhoras de classe média. Elas respondem que ?satã está se apropriando da Venezuela? e que a Rosa Mística está sofrendo por isso. E quando a Rosa Mística deixará de sofrer? ?Quando satã deixar a Venezuela.? Essas senhoras dizem ainda que tentaram levar a Rosa Mística até Miraflores (sede do governo), mas quando chegaram perto a virgem caiu e se rompeu. Isto é, a Rosa Mística ?não quer entrar em Miraflores porque, enquanto satã estiver lá, sempre ocorrerá o mesmo?.A poucos quilômetros dali, no extremo Este de Caracas, onde estão também alguns dos bairros mais pobres da capital, as pessoas mais humildes também têm a sua santa, Santa Bárbara. Segundo o sincretismo e as tradições cubanas, Santa Bárbara é uma divindade africana, cultuada e homenageada sempre nos dia 4 de dezembro. Essa virgem, dizem, estaria apoiando Chávez.Explosão socialEsse fanatismo e as gritantes diferenças sociais, econômicas, culturais, políticas e raciais podem levar esses dois grupos a um confronto violento, afirmam alguns analistas políticos. Estatisticamente, a oposição é minoria, porém uma minoria poderosa e rica. Por isso, a explosão social ocorreria em regiões de Caracas onde as pessoas se sentem assediadas, ameaçadas.Nos últimos anos, por exemplo, a classe média e média alta vêm comprando armas. Alguns números indicam que sete em cada dez venezuelanos têm pelo menos uma arma. Quase todas os bairros de Caracas têm uma favela ao lado, os chamados círculos bolivarianos (em alusão à Constituição Bolivariana de Chávez), aos quais a oposição apelidou de ?círculos do terror?.Pior, explica o professor Samuel Moncada, diretor da Faculdade de História da Universidade Central de Venezuela (UCV), a classe média vem fazem cursos e simulações de ataques com a assessoria de companhias privadas que estão estimulando o ?pânico? entre essas pessoas. ?A classe média vive em um estado de assédio mental. Pensam que, a qualquer momento, os pobres vão descer dos morros e atacá-los?, diz o professor.

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