Patrick Baz/AFP Photo
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Oposição leva governo paralelo a zonas ''liberadas''

Líderes de insurgentes que expulsaram forças de Kadafi do leste da Líbia formam Conselho Nacional, poder administrativo civil

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

Os líderes do levante popular contra o regime do presidente Muamar Kadafi, há 41 anos no poder, anunciaram ontem a formação de um Conselho Nacional para administrar as cidades sob seu controle. Ele será composto por integrantes dos conselhos municipais das cidades "liberadas", ou seja, nas mãos dos opositores de Kadafi, que contam com a adesão de grande parte das Forças Armadas líbias.

O nome e o número dos integrantes do Conselho não foram definidos. Em entrevista coletiva, o novo porta-voz do grupo, o advogado de direitos humanos Abdul Hafeed Thouga, disse que o Conselho não tem um "líder", que não se trata de um governo transitório e que não há previsão de eleições. "Não se pode falar nisso quando a capital do país ainda está nas mãos do regime", explicou Thouga em uma sala de audiência da Corte de Justiça de Benghazi, segunda cidade do país.

Respondendo a perguntas de jornalistas de veículos predominantemente estrangeiros - toda a imprensa líbia é estatal -, o advogado rejeitou a possibilidade de aceitar ajuda externa para derrubar o regime Kadafi, o mais longevo ditador no mundo árabe.

"Somos totalmente contrários a qualquer intervenção internacional", afirmou Thouga, falando em árabe, com tradução para o inglês. "O restante da Líbia será liberada pelos participantes da Revolução de 17 de fevereiro, e os remanescentes das Forças Armadas leais ao regime serão derrotados pelo povo."

Poder civil. Os protestos começaram no dia 15, por causa da prisão de outro advogado de direitos humanos, Fathi Terbel, que trabalha para as famílias de uma parte dos 1.270 presos políticos executados em 1996. Mas a data da "revolução" foi escolhida em função de outra manifestação, em 17 de fevereiro de 2006, duramente reprimida e distorcida pelo regime como sendo em protesto contra caricaturas do Profeta Maomé publicadas por um jornal dinamarquês.

Thouga esclareceu também que o novo Conselho é composto exclusivamente de civis e não tem relação direta com a fatia do Exército que apoia o movimento contra Kadafi - que, aos 68 anos, planejava tornar seu segundo filho, Saif al-Islam, seu sucessor.

O advogado disse que a função do Conselho será cuidar do dia a dia das cidades que não estão mais sob o governo de Kadafi, de maneira a desmentir a previsão do ditador de que elas mergulhariam no "caos" por causa da ruptura com Trípoli. Exprimindo sua opinião pessoal, e não do Conselho, que ainda não se reuniu, o advogado descartou a possibilidade de negociar com Kadafi: "Não há o que negociar com um governante que viola os direitos humanos e provoca um derramamento de sangue."

Ele reconheceu a importância do apoio de parte dos militares líbios, mas realçou que as Forças Armadas têm um papel diferente dos civis. "Temos colaborado com as Forças Armadas e temos esperança de que o regime caia nos próximos dias, quem sabe nas próximas horas", frisou ele.

Depois de quatro dias e quatro noites de duros enfrentamentos entre milhares de jovens civis - armados com granadas de pólvora caseiras e coquetéis molotov - e as forças especiais de Kadafi, a adesão do Exército ao movimento, no fim de semana passado, foi decisiva para que Benghazi passasse às mãos da oposição.

A cidade de 1 milhão de habitantes (Trípoli tem 2 milhões e o país todo, 6 milhões, incluindo 2 milhões de estrangeiros) continuava em festa ontem. Milhares de manifestantes se reuniram em frente à Corte de Justiça para exigir a saída de Kadafi.

Na avenida costeira que passa pela praça, filas de carros buzinavam, muitos trazendo a bandeira vermelha, preta e verde, com um crescente e uma estrela brancas na faixa preta - o símbolo do país antes de Kadafi assumir, num golpe militar, em 1969.

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