Oposição na Venezuela critica oferta de ajuda do governo brasileiro

A oposição venezuelana qualificou nesta terça-feira de hostil e de violação da soberania a ajuda petrolífera prometida pelo governo brasileiro para a Venezuela. "Essa é uma atitude inamistosa para com a sociedade democrática, para com a (frente oposicionista) Coordenadoria Democrática (CD)", afirmou o dirigente oposicionista Timóteo Zambrano, membro da mesa de diálogo com o governo, à TV Globovisión. "É uma violação expressa da soberania", acrescentou, dizendo que a CD pedirá amanhã à embaixada brasileira "uma explicação ou sua posição" sobre a crise política venezuelana. Após voltar de uma visita a Caracas, o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, disse terça-feira que, logo depois que tomar posse, no dia 1º, Lula e o presidente venezuelano, Hugo Chávez, discutirão a assistência petrolífera mútua. Ainda segundo Garcia, o presidente eleito do Brasil pensa em emprestar um navio petroleiro para ajudar a Venezuela a normalizar o abastecimento no mercado interno, seriamente afetado pela greve iniciada dia 2. "Não se trata apenas de um negócio, mas também de contribuir para a estabilidade venezuelana", disse Garcia. Zambrano afirmou, porém, que o anúncio de Garcia "visa apenas a quebrar a greve cívica nacional", convocada pela oposição para forçar a renúncia de Chávez, e acrescentou que, se concretizar-se a ajuda brasileira, isso violará as disposições da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre "neutralidade" em relação à crise política venezuelana. O presidente da entidade empresarial Fedecámaras, Carlos Fernández, um dos líderes dos protestos contra Chávez, também criticou a possível ajuda petrolífera brasileira, dizendo que seria uma ingerência na situação da Venezuela e tem de ser rejeitada. "Os assuntos venezuelanos são resolvidos pelos venezuelanos", acrescentou, em declarações à Rádio Unión. Chávez, que foi democraticamente eleito em 1998 e sobreviveu a um golpe em abril, assegurou domingo que assistirá à posse de Lula em Brasília e aproveitará a viagem para discutir "temas de interesse comum". O presidente Fernando Henrique Cardoso também já afirmou que a Petrobrás deverá fornecer petróleo à Venezuela, a pedido das autoridades venezuelanas, mas assinalou que o empréstimo de petroleiros é difícil, já que os usados pela petrolífera brasileira são arrendados. Depois das manifestações contra e pró-Chávez que marcaram a noite de Natal, muitos venezuelanos passaram o dia de hoje em igrejas ou descansando em parques públicos ou na praia. O cardeal Ignacio Velasco, num raro pronunciamento sobre a crise, fez um apelo pela reconciliação. "Podemos construir esta nação juntos, unidos na solidariedade, não como inimigos uns dos outros", afirmou. Num raro dia sem manifestações de rua, Caracas estava calma, mas voltaram a formar-se filas nos ainda poucos postos de gasolina com combustível, apesar da tomada de controle pela Marinha, nos últimos dias, de dois petroleiros cuja tripulação aderira à greve. Nos EUA, as conseqüências da greve na Venezuela já são sentidas. Além da alta do preço do petróleo (que, impulsionado também pela perspectiva de ataque ao Iraque, fechou terça-feira a US$ 31,97 por barril na Bolsa Mercantil de Nova York), o abastecimento do produto na costa do Golfo do México (onde a maior parte do petróleo importado da Venezuela é refinada) caiu quase 2 milhões de barris.

Agencia Estado,

25 Dezembro 2002 | 20h16

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