Oposição na Venezuela tenta conter abstenção

Antichavistas buscam convencer população que sistema de votação, antes questionado, é confiável

Lourival Sant?Anna, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Parte da oposição venezuelana percebeu o erro da tática de pôr em dúvida a confiabilidade do sistema eleitoral do país e tem revisto a estratégia, o que culminou num estudo divulgado ontem pelo jornal oposicionista TalCual. De acordo com o relatório, uma análise técnica do processo eleitoral concluiu que as urnas eletrônicas são confiáveis.Segundo o cruzamento de dados, tanto no referendo revogatório de 2004 quanto na eleição presidencial do ano passado, o presidente Hugo Chávez teve melhor votação nas 600 seções eleitorais em que o voto era manual do que nas 33 mil cujas urnas eram eletrônicas. O relatório, preparado para o Bloco do Não - que se opõe à reforma constitucional proposta por Chávez, a ser submetida a um referendo no dia 2 -, conclui que a oposição tem meios de fiscalizar a contagem dos votos e evitar fraudes. O relatório tem o claro intuito de convencer a fatia recalcitrante da oposição a ir votar. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE), dominado por chavistas, tem rejeitado sistematicamente os recursos da oposição sobre o uso indevido dos órgãos e recursos públicos na propaganda governista, no que a pesquisadora Francine Jácome, do Instituto Venezuelano de Estudos Sociais e Políticos, vê um propósito: "Muitas ações do CNE buscam causar desconfiança quanto ao processo, porque a abstenção convém ao governo."Independentemente da precisão das pesquisas eleitorais no país, há uma convicção generalizada de que a abstenção beneficiaria o governo, diante da apatia de parte dos antichavistas, que desde 1998 já assistiram ao presidente vencer 11 votações. No referendo revogatório de 2004, sobre a continuação ou revogação do mandato de Chávez, surgiram histórias de que o governo venezuelano teria violado o sigilo do voto eletrônico e, com base nas listas, teria demitido funcionários públicos e perseguido muitos eleitores que votaram pelo "sim". Por causa disso, em 2005, apesar de observadores internacionais atestarem a segurança do sistema, a oposição retirou-se da eleição para a Assembléia Nacional, resultando numa maioria parlamentar de 100% para o governo.De acordo com sondagem divulgada ontem pelo instituto de pesquisas Keller & Asociados, 45% dos entrevistados votariam contra a reforma e 31% a favor, enquanto 24% se disseram indecisos. Entre os que afirmaram que vão comparecer às urnas no dia 2, 45% optariam pelo "não", 40% pelo "sim" e os restantes 15% não decidiram. Muitos observadores advertem que não existem pesquisas confiáveis na Venezuela.?REFLEXÃO?Em campanha pelo "sim", Chávez fez ontem uma advertência enigmática sobre a hipótese de ser derrotado no referendo que decidirá o futuro de sua reforma constitucional. "Se ganhar o ?não?, terei de iniciar um processo profundo de reflexão", disse Chávez, depois da divulgação da pesquisa."Creio que vai ganhar o ?sim?, mas devem-se considerar todas as opções." O presidente deixou no ar qual seria sua reação diante de uma derrota, mas emendou outro raciocínio, dirigindo-se a adversários que supostamente tramariam matá-lo: "Pensem bem. Não ficará pedra sobre pedra e se arrependerão por toda a vida." Em outro momento do discurso, voltou a referir-se à possibilidade de derrota, afirmando que, nesse caso, "começará a preparar-se para ver quem vai assumir o comando quando tiver de ir embora em 2013".Exortando os venezuelanos a votar pelo "sim", Chávez detalhou sua proposta, contida na reforma constitucional, de destinar pelo menos 5% do orçamento aos conselhos populares, e de permitir ainda que eles obtenham receita gerindo "empresas de produção comunitária". Segundo o presidente venezuelano, os conselhos podem usar esse dinheiro para tapar buracos nas ruas, melhorar as escolas ou mesmo ajudar as famílias pobres.Durante o longo discurso a representantes de conselhos populares, no ginásio Poliedro, em Caracas, Chávez disse que as greves de médicos e de motoristas, assim como a crise de desabastecimento de alimentos, são parte de uma conspiração dos adversários para criar o caos no país. "Em todas as suas tentativas, fracassaram, mas vão seguir tentando", alertou aos militantes bolivarianos, entre aplausos emocionados. "Por isso, devemos seguir derrotando-os em todos os terrenos em que nos dêem batalha."Em seu discurso de ontem, exibido ao vivo pela TV estatal, Chávez menosprezou as sondagens, com as quais "os setores adversários buscam confundir os venezuelanos e dar ânimo a suas esquálidas fileiras". "O povo é generoso", disse o presidente, inflamando-se: "Bem-aventurados os pobres, porque deles será o reino dos céus, e o reino dos céus é o socialismo, a igualdade. Aqui está a proposta divina de Cristo, redentor dos pobres." E Chávez arrematou, atacando as autoridades das igrejas católica e evangélicas que definiram a reforma constitucional como anticristã: "Condeno-os ao inferno."

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