Cesar Olmedo/Reuters
Cesar Olmedo/Reuters

Câmara rejeita pedido da oposição paraguaia de impeachment do presidente por má gestão na pandemia

Iniciativa que uniu o Partido Liberal e a esquerdista Frente Guasu vinha sendo analisada desde os primeiros protestos contra Mario Abdo Benítez, mas foi barrada pelos deputados do Partido Colorado

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 18h04
Atualizado 17 de março de 2021 | 21h55

ASSUNÇÃO - A Câmara dos Deputados rejeitou as acusações de impeachment contra o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, e seu vice, Hugo Velázquez, pela forma como o governo tem lidado com a pandemia de coronavírus poucas horas após elas serem apresentadas pela oposição. Desde o início de março, Benítez vem sendo pressionado por manifestações populares que pedem sua renúncia.

O Partido Liberal, o maior da oposição, e outros partidos minoritários tentavam emplacar o julgamento político do presidente, mas os deputados do Partido Colorado, de Benítez, que têm a maioria na Casa, conseguiram derrubar a proposta por um placar de 42 votos contra, 36 a favor e 2 ausentes, em duas rodadas de votação.

Apesar de o impeachment ter unido o Partido Liberal, de Efraín Alegre, e a esquerdista Frente Guasu, de Fernando Lugo, a chave da votação estava nas mãos do ex-presidente Horacio Cartes, que controla uma importante facção do Partido Colorado.

A bancada do Partido Liberal tem 29 cadeiras, e eram necessários 53 votos para que o processo fosse encaminhado ao Senado.

A única chance de a oposição mudar o jogo está nas ruas. Analistas afirmam que, se os protestos crescerem e continuarem por mais tempo, Cartes não terá saída e poderá abandonar o governo em um eventual novo pedido de impeachment para não naufragar com ele. Hoje, os paraguaios viveram o 12.º dia seguido de protestos. 

Autoridades sanitárias vêm registrando uma média diária de 40 mortes e 2 mil casos de covid – um a cada três testes dão resultado positivo no Paraguai. Os hospitais estão lotados e o programa de imunização do governo está atrasado: até agora, apenas 12 mil pessoas foram vacinadas. 

“O sistema de saúde está saturado, à beira do colapso. Estamos lutando para preservar a integridade e a vida dos paraguaios”, disse Jorge Giubi, diretor de atendimento do Hospital de Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional. “O Hospital de Clínicas vive uma situação difícil. Temos um orçamento limitado, que já foi usado para remédios e suprimentos. Esse déficit é transferido para o bolso do paciente. Muitos têm de comprar os insumos que não temos.”

Em comparação com o Brasil, o Paraguai tem menos da metade de casos de covid-19 registrados por milhão de habitantes e quase um terço do total de mortes por milhão de habitantes. Mesmo assim, a população insatisfeita foi às ruas e protesta diariamente em frente ao Congresso, ao palácio presidencial e até diante da casa de Benítez em Assunção. 

Base legal

Na acusação apresentada hoje, a deputada Celeste Amarilla afirmou que os documentos incluem uma relação de erros do governo no pagamento ao Covax, consórcio ligado à Organização Mundial da Saúde (OMS) para distribuição de vacinas contra covid-19. No total, Benítez teria pagado US$ 6,8 milhões (cerca de R$ 38,4 milhões) por uma parcela das 4,3 milhões de doses de vacina. 

Segundo a imprensa paraguaia, a oposição diz que o primeiro dos pagamentos foi fechado de forma irregular por meio de uma transferência à Aliança Mundial para Vacinas e Imunização (Gavi), a fundação criada por Bill Gates para garantir que as vacinas cheguem aos países mais pobres. 

“Algum tempo depois, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e a OMS comunicaram ao Paraguai que o dinheiro deveria ter sido transferido para a conta da Opas e da OMS, não para a fundação Gavi. O governo errou”, diz a peça de acusação. 

A oposição afirma que foi necessário iniciar um procedimento para recuperar o dinheiro transferido e enviá-lo para a conta correta, o que atrasou o início da campanha de vacinação. O Ministério da Saúde respondeu que apenas um dos valores foi para a Gavi, como havia sido determinado no contrato de aquisição das vacinas, mas o valor teria sido devolvido, segundo o governo.

Até agora, além dos 12 mil vacinados, o Paraguai conseguiu 20 mil doses que foram doadas pelo Chile, país que tem a vacinação mais avançada da região. A prioridade é imunizar os trabalhadores do setor da saúde. Hoje, Benítez afirmou que sexta-feira chegará uma nova remessa de 36 mil doses distribuídas pelo Covax. / REUTERS, EFE e AFP 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.