Oposição reage a ameaça de intervir no Grupo Clarín

Líderes opositores pedem à Comissão Nacional de Valores que não adote a medida, vista como ofensiva do governo contra a mídia

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2013 | 02h06

Líderes da oposição pediram ontem ao presidente da Comissão Nacional de Valores (CNV), Alejandro Vanoli, que não intervenha no Grupo Clarín. O motivo da solicitação são os rumores que desde sexta-feira indicam que o governo da presidente Cristina Kirchner poderia solicitar a intervenção da diretoria da principal holding multimídia da Argentina à CNV.

Ao longo da última semana, a CNV enviou 13 pedidos de relatórios sobre o estado da contabilidade e listas das composições acionárias às diversas empresas do Grupo Clarín. Analistas acreditam que a CNV tenta encontrar uma desculpa para aplicar a intervenção.

A medida seria uma nova ofensiva do governo contra o grupo, cujos meios de comunicação divulgam semanalmente novos casos de corrupção do gabinete presidencial. A intervenção por meio da Comissão Nacional de Valores seria possível graças à lei aprovada no Parlamento em dezembro que permite que um acionista minoritário possa solicitar à CNV a intervenção na diretoria de uma empresa caso exista um cenário de gestão prejudicial. Neste caso, o acionista minoritário seria o próprio Estado argentino, que conta com 9% das ações do Clarín.

A intervenção permitiria à CNV, entidade controlada pelo governo, demitir funcionários, vetar decisões e remover diretores. Além disso, poderia modificar a linha editorial do grupo jornalístico, um dos poucos na Argentina não alinhados com o governo Kirchner.

A deputada Elisa Carrió, líder da Coalizão Cívica, de oposição, pediu a Vanoli que se "abstenha" de adotar uma eventual intervenção. Segundo Carrió, isso seria "inconstitucional". A deputada sustenta que a estratégia da presidente Cristina Kirchner é a de "aniquilar a liberdade de expressão".

Eduardo van der Kooy, editor e colunista do jornal Clarín, declarou ontem que "o governo Kirchner é capaz de tudo em sua ofensiva contra os meios de comunicação não alinhados". Van der Kooy sustenta que o alvo de diversas medidas do governo, entre elas a lei de mídia e a recente reforma da Justiça, são os meios de comunicação não controlados pela presidente Cristina, "especialmente o jornal Clarín".

O clima no grupo é de preocupação. Há rumores de que a intervenção poderia ser feita hoje à noite, durante o jogo do Boca Juniors contra o Corinthians, aproveitando que a atenção da opinião pública estaria na partida.

O prefeito Maurício Macri anunciou ontem que Buenos Aires será um território de "proteção da liberdade de imprensa". Macri assinou um decreto que determina que a Justiça da capital argentina será encarregada das questões de liberdade de imprensa e de expressão dentro do âmbito da cidade. Macri, do partido opositor Proposta Republicana, pretende impedir que a Justiça federal determine intervenções nos meios de comunicação no território portenho, que administra. O decreto precisará ser aprovado pela Assembleia Legislativa da capital.

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