Oposição rejeita trégua e promove "marcha das velas"

A greve pela renúncia do presidente venezuelano, Hugo Chávez, entrou na quarta semana com novos protestos de rua convocados pela oposição, que rejeitou uma proposta de "trégua natalina" feito pelo governo. Gritando slogans contra Chávez, dezenas de milhares de pessoas marcharam nesta segunda à noite por Caracas com velas e tochas até chegar à Praça Chuao - no leste da capital, perto da sede da estatal Petróleos da Venezuela (PDVSA) -, no que alguns moradores chamaram de véspera de Natal mais triste de que se lembram. "Sem Natal em 2002, com liberdade em 2003", diziam cartazes dos manifestantes. Membros da oposição tinham prometido marchar até o Palácio de Miraflores (sede do governo), o que não ocorreu. Horas antes do que a oposição denominou de "marcha das velas" em Caracas, centenas de antichavistas foram dispersados pela Guarda Nacional em Maracaibo, 500 quilômetros a oeste da capital. Os manifestantes tentaram atravessar a ponte sobre o Lago de Maracaibo (no qual estão ancorados vários petroleiros), mas foram interceptados pela Guarda Nacional, que usou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão e evitar o bloqueio da via que comunica Maracaibo com o restante do país. Não há informações sobre feridos nem detidos. Os manifestantes gritavam slogans contra Chávez e contra a tomada, sábado, do petroleiro Pilín León pelos militares. O petroleiro, cuja tripulação aderira à greve, estava atracado no Lago de Maracaibo desde os primeiros dias da paralisação, bloqueando outros navios. Com a mobilização do Pilín León e de outros 3 dos 12 petroleiros da PDVSA, o governo começou a reativar a indústria petrolífera e a reabastecer o mercado de Caracas. Mas ainda havia longas filas nos poucos postos de Caracas que tinham gasolina. O ministro da Energia, Rafael Ramírez, disse que "o pior já passou", mas assinalou que a normalização do abastecimento será demorada, já que altos e médios executivos da PDVSA continuam em greve. O ministro disse ainda que gerentes e funcionários grevistas da PDVSA haviam deixado "mecanismos eletrônicos ativados" para receber o salário da primeira quinzena, apesar da paralisação, mas agora o governo "já tomou o controle" do sistema de pagamento. Para reduzir também o desabastecimento de alimentos, o governo anunciou que importará US$ 7 milhões em arroz, milho, leite, café e atum do Chile, República Dominicana, Colômbia e Argentina. A tensão em Caracas continuava alta. Desconhecidos jogaram uma granada na sede da Fedecámaras danificando a fachada. Não houve feridos. De madrugada, desconhecidos invadiram a representação da Organização dos Estados Americanos (OEA) na capital, roubando documentos e computadores. O secretário-geral da OEA, César Gaviria, vem tentando mediar um acordo entre governo e oposição para pôr fim à crise política. Nesta segunda, o vice-presidente José Vicente Rangel propôs uma trégua para tentar impulsionar o diálogo. "Nesta época de Natal é importante evitar a violência e, por isso, creio que uma trégua seria muito saudável para todos", disse Rangel. Mas o representante da oposição nas conversações com o governo, Timóteo Zambrano, rejeitou a idéia: "Neste momento, o objetivo é continuar com a greve." O líder da oposicionista Coordenadoria Democrática, Carlos Ortega, qualificou de "desfaçatez" a proposta de Rangel, acrescentando: "As manifestações pacíficas continuarão. O sacrifício terá como fruto a queda deste regime fascista." A oposição, que inclui partidos, sindicatos e executivos da PDVSA, quer a renúncia de Chávez, a antecipação das eleições para o primeiro trimestre de 2003 e a reforma da Constituição. O governo, porém, assinala que a Constituição só permite que seja realizado em agosto de 2003 um referendo sobre o futuro do presidente.

Agencia Estado,

24 Dezembro 2002 | 00h05

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