Oposição rompe cerco a palácio no Cairo

Multidão anti-Morsi invade área isolada; governo aceita discutir data de referendo

CAIRO, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h05

A tensão no Egito aprofundou-se ainda mais ontem, depois que milhares de opositores do presidente Mohamed Morsi avançaram sobre o arame farpado que isolava o palácio presidencial e, do outro lado, integrantes de Irmandade Muçulmana em um comício juravam vingar a morte de três de seus integrantes. Pressionado, o governo indicou que está disposto a postergar o referendo sobre a nova Constituição, marcado para o dia 15.

O anúncio sobre o possível adiamento do referendo foi feito pelo vice-presidente, Mahmud Mekki, em uma nota enviada a jornais egípcios. O recuo, porém, só ocorrerá se houver garantias de que a oposição não tentará bloquear, na Justiça, a nova Carta, afirmou Mekki. A oposição indicou que a proposta atende apenas parte de suas reivindicações e, portanto, os manifestantes continuarão nas ruas.

Os comentários foram feitos por Mekki um dia depois de o presidente ir à TV pedir moderação a ambos os lados. Morsi, entretanto, deixou claro que não recuará nos decretos que lhe concederam mais poderes, tampouco negociará o texto final da Constituição, aprovado às pressas por grupos islâmicos.

O governo tentará realizar hoje um encontro com líderes opositores para discutir possíveis soluções para a crise no Cairo. No entanto, vários integrantes de grupos laicos anunciaram que boicotarão o evento.

Ainda ontem, o Comitê Eleitoral determinou o adiamento da votação de egípcios vivendo no exterior. Eles deveriam começar a votar hoje, mas só o farão a partir de quarta-feira, segundo o novo calendário.

A polícia e o Exército não reprimiram a multidão de opositores que voltaram ontem à residência do presidente, no bairro de Heliópolis. Em cenas que lembravam as que antecederam a queda do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011, manifestantes subiram em tanques e chegaram a pichar blindados do Exército, sob o olhar passivo dos soldados.

Aos gritos de "vá embora" para Morsi e "o povo quer a queda do regime", vários manifestantes entraram em uma área que tinha sido isolada pelos militares diante do palácio presidencial. Eles eram observados pelas forças de segurança, imóveis. Na quarta-feira, a calçada diante do palácio presidencial havia sido palco de um violento confronto entre opositores e integrantes da Irmandade Muçulmana. Sete pessoas morreram nos choques.

A temperatura política no Cairo vem subindo nas últimas semanas, depois que o presidente, da Irmandade Muçulmana, editou decretos no dia 23 que o tornam virtualmente imune ao Judiciário e blindam a Assembleia Constituinte da ação dos juízes. Morsi afirma que as medidas são temporárias e buscam proteger a "revolução" de forças aliadas a Hosni Mubarak que ainda dominam a Justiça. Para a oposição, o presidente está tentando - e conseguindo - consolidar a hegemonia de sua facção islâmica sobre o novo Egito.

Na semana passada, sob boicote de grupos laicos, de esquerda e cristãos, deputados constituintes aprovaram ao longo da madrugada o texto final da nova Constituição. O documento deveria ir a referendo no dia 15.

Segundo a oposição, a Carta foi elaborada apenas pelos grupos islâmicos e dá peso inédito à sharia (lei religiosa), em detrimento de direitos básicos de proteção das mulheres, liberdade de expressão e crença. Ontem, as Nações Unidas também criticaram a nova Constituição.

Em um tímido sinal de recuo, o governo decidiu postergar o voto no referendo de egípcios que vivem no exterior. Eles deveriam ir às urnas hoje, mas votarão só na quarta-feira. AFP e AP

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