Oposição russa se mobiliza

Movimento crítico a Putin organiza eleição interna e estrutura hierárquica para desafiar o dono do Kremlin

BENJAMIN BIDDER E MATTHIAS SCHEPP, DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h19

Numa ilha no Rio Moscou, à sombra das torres do Kremlin, a nova Rússia preenche os vazios deixados pela antiga Rússia: os cafés dos artistas, as boates e as redações de material informativo da Internet mudaram-se para os antigos edifícios da fábrica de chocolate Outubro Vermelho. A fábrica, estatizada depois da Revolução de Outubro e rebatizada Fábrica de Doces No. 1, é agora um local de encontro de jovens e ricos moscovitas, artistas e garotas da moda.

O novo Conselho de Coordenação realiza sua primeira reunião em um bar que era um armazém de cacau. Os garçons juntaram as cadeiras formando um retângulo, e na sala há dois microfones. Um deles é para os delegados, e o outro está preso à lapela de Alexei Navalny, advogado e conhecido blogueiro.

Algumas semanas atrás, Navalny foi eleito presidente do conselho de Coordenação, de 45 membros. Ele chefia um grupo pitoresco que inclui um poeta judeu, um radical de direita, um economista liberal e Sergei Udalzov, um neostalinista que, em 2004, pedia a volta da União Soviética .

O grupo se uniu em torno de um objetivo principal: expulsar o presidente Vladimir Putin do Kremlin e oferecer uma resposta direta à sua democracia de aldeia de estilo Potemkin, com seus partidos controlados pelo Kremlin.

A escolha do blogueiro Navalny para chefiar o conselho aconteceu principalmente pela internet, onde ele foi o mais votado e posteriormente escolhido pelo organismo como seu presidente. O escritor Dmitrii Bykov ficou em segundo lugar e o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov foi o terceiro. Anteriormente, a estação de TV Dozhd, da oposição, hospedara debates televisionados entre os candidatos, no estilo dos debates presidenciais americanos. "Nosso comitê deveria coordenar os esforços de milhões de pessoas que aguardam mudanças", disse Navalny. "É uma coisa que nunca existiu neste país."

É verdade. Durante décadas, a oposição foi constituída por um bando de gente ideologicamente intransigente que vivia brigando e disposta a aniquilar o adversário. O Conselho de Coordenação que acaba de ser eleito inclui Gennadi Gudkov, um ex-coronel da KGB que foi expulso do Parlamento russo, a Duma, e a loira socialite Kseniya Sobchak, filha do ex-prefeito de São Petersburgo, um dos mentores de Putin.

Kseniya, linda, rica e em geral apolítica durante anos, até participar dos grandes comícios de protesto, em dezembro do ano passado, foi a quarta candidata mais votada. Seu namorado, o político liberal da oposição Ilya Yashin, foi o quinto. Até pouco tempo atrás, entretanto, os dois recebiam menos atenção com suas declarações políticas do que o belo serviço fotográfico publicado em Hello!, a versão russa de People, em que apareciam em várias poses no Hotel Royal Mansur, de cinco estrelas, de Marrakesh: jogando xadrez, abraçados, vestindo kaftans marroquinos e segurando iPads.

A revista logo reforçou a convicção de muitos russos de que "as pessoas que estão lá em cima não mudam, sempre, nadando no luxo". Isso ilustra o outro problema da nova oposição: até agora, não conseguiu unir nos protestos políticos de Moscou as classes média e alta com a insatisfação social do país. Operários e camponeses ainda são os eleitores de Putin.

Não obstante, o conselho recentemente eleito despertou esperanças, tanto no país quanto além das fronteiras da Rússia.

Será verdade que a oposição tradicionalmente dividida agora esteja criando uma frente unida? Poderá ser capaz de representar uma ameaça para Putin? Essa primeira reunião dos oponentes de Putin poderá assinalar o nascimento de um governo de oposição, o núcleo de um Parlamento legitimado pela vontade do povo? A composição do conselho, com representantes de segmentos muito diferentes da sociedade, sugere que é bem possível, mas os números não corroboram esta possibilidade. Somente 81.808 russos, pouco mais de 5% da população de 142 milhões, participaram da eleição pela internet.

"Esse resultado seria ruim até nas Seychelles", comentou ironicamente o jornal moscovita Moskovsky Komsomolets, normalmente favorável à oposição.

Importantes líderes da oposição, como o ex-primeiro-ministro Mikhail Kasyanov e o membro esquerdista da Duma, Ilya Ponomarev, imediatamente boicotaram a eleição, em parte por causa de Navalny. "Ele tem um programa econômico neoliberal inspirado pelos ideólogos oligarcas e por uma visão de mundo nacionalista", afirma Ponomarev. "Se ele assumir o poder, será pior do que sob Putin".

A reunião do conselho no antigo armazém de cacau acaba em briga. O político comunista Udalzov quer organizar outro importante comício em vez de "continuar fazendo barulho a respeito do regulamento interno". O membro mais jovem do conselho, Maxim Kaz, 27, discorda; ele não acha as manifestações muito importantes e quer que o assunto seja retirado da pauta. "Então vá para o inferno", responde Udalzov.

Depois da reunião, Udalzov e Navalny participam de um comício em frente ao edifício Lubyanka, sede do serviço de informações de Putin.

São presos pela polícia e liberados poucas horas depois. "As mesmas brincadeiras inúteis de sempre", comenta Kaz, antes de sair para dar uma entrevista à TV sobre a necessidade de criar ciclovias nas principais cidades.

Dias mais tarde, Kaz, com sua longa cabeleira e jeans largos, ao volante do seu SUV entra no pátio interno de um edifício de apartamentos de concreto no bairro de Shchukino, na parte noroeste de Moscou. Depois de abandonar três diferentes cursos universitários, Kaz se tornou o campeão russo de pôquer. Hoje é considerado um astro em ascensão da oposição não parlamentar.

Graças à carreira no pôquer tornou-se independente. A empresa de Kaz busca jogadores talentosos, empresta-lhes as taxas para participarem de torneios importantes e, em troca, fica com uma parte do dinheiro do seu prêmio. Kaz ganha cerca de US$ 320 mil ao ano, o suficiente para manter a cabeça desanuviada para futuros planos políticos.

Ele fez um discurso muito comentado num grande comício contra Putin, e no dia 4 de março, quando Putin foi eleito presidente pela terceira vez, obteve uma cadeira no conselho do distrito de Shchukino, um reduto do Partido Rússia Unida de Putin. No distrito fica o Instituto Kurchatov, o berço da bomba atômica soviética, e as ruas ainda têm os nomes dos generais da era soviética.

Kas está atrasado, e quando chega ao conselho 14 membros do conselho já esperam por ele na sala 103 do edifício da administração. Ele senta de pernas cruzadas sobre um cadeira. A presidente, uma mulher nascida em 1941, logo o chama à ordem: "Ponha os pés no chão, camarada Kaz!" "Inferno municipal", tuíta Kaz no seu iPhone. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

SÃO JORNALISTAS

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