Oposição síria chega dividida a cúpula da Liga Árabe

Disputas entre radicais islâmicos e moderados espelham angústias vividas também pelo Ocidente e monarquias do Golfo

Lourival Sant'Anna,

25 de março de 2013 | 19h42

 O xeque Moaz Khatib senta-se hoje na cadeira reservada ao governo sírio na cúpula da Liga Árabe em Doha, Catar, como presidente demissionário da Coalizão Nacional da Oposição Síria. O “primeiro-ministro interino” das áreas sob controle rebelde, Ghassan Hitto, participará da cúpula pela primeira vez depois de eleito pela coalizão, sem o apoio do Conselho Militar Revolucionário, ao qual, em tese, está subordinado o Exército Sírio Livre. Ao menos 9 dos 63 membros civis da coalizão afastaram-se em protesto contra a eleição de Hitto, com 35 votos e o apoio da Irmandade Muçulmana.

No exato momento em que os países árabes e a comunidade internacional se mobilizam para ajudar a insurgência na Síria, agudizam-se os conflitos internos da oposição, que espelham também as angústias do Ocidente e de seus aliados no Golfo Pérsico quanto à influência do radicalismo islâmico no levante. Khatib, um ex-pregador da Grande Mesquita Ummayad, em Damasco, é um clérigo moderado, condição para ocupar o cargo, que requeria a aprovação do regime de Bashar Assad, violentamente secularista.

O xeque perdeu apoio na coalizão depois de cogitar uma negociação com o regime. A ideia é rejeitada tanto pelos combatentes seculares que enfrentam o Exército sírio quanto pelos radicais islâmicos, incluindo a Irmandade Muçulmana. A coalizão foi criada com apoio dos Estados Unidos, França e Inglaterra para reduzir a influência da Irmandade, que dominava o Conselho Nacional Sírio. Além disso, o conselho, formado por oposicionistas no exílio, não gozava do respeito dos combatentes sírios e dos políticos que não deixaram o país.

A coalizão não resolveu nenhum desses problemas: Hitto foi eleito com o apoio da Irmandade e morou a maior parte de sua vida nos Estados Unidos, onde se naturalizou, casou-se com uma americana e teve quatro filhos. Ele emergiu como nome palatável tanto para os Estados Unidos quanto para a Irmandade, mas, aparentemente, ao elegê-lo, a maioria da coalizão ignorou “o resto”: os sírios comuns, que lutam contra o regime dentro do país.

Seria necessária uma ajuda maciça por parte de americanos, europeus e monarquias árabes do Golfo, para que a coalizão adquirisse legitimidade aos olhos dos combatentes sírios. Mas essa ajuda não veio, até aqui, exatamente por causa das incertezas que, do ponto de vista desses países, cercam os rumos do levante, e quem ou o que ocupará o lugar de Assad.

O ministro do Interior da Arábia Saudita, general Mansour Turki, advertiu os cidadãos sauditas que lutam na Síria de que serão presos ao voltar a seu país, já que o envolvimento no conflito é “ilegal”. Entretanto, famílias sauditas e de outras monarquias do Golfo financiam, por afinidades religiosas, os combatentes radicais, incluindo células da Al-Qaeda provenientes do Iraque, reunidas na Frente Al-Nusra, que desde dezembro figura na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado americano.

O governo do Catar, anfitrião da cúpula, age de forma ainda mais inequívoca, ajudando diretamente os insurgentes, como fez na Líbia, com o claro intuito de exercer influência sobre o futuro governo.

São essas incongruências que têm travado a ajuda aos insurgentes – e prolongado o conflito que já deixou ao menos 70 mil mortos.

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