Oposição síria elege empresário exilado nos EUA seu 'premiê'

Ghassan Hitto, islâmico moderado que trabalhou no setor de tecnologia no Texas, formará governo paralelo ao de Assad

ISTAMBUL, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2013 | 02h06

Um islâmico moderado que trabalhou nas últimas décadas no setor de tecnologia nos EUA foi eleito "primeiro-ministro" da oposição da Síria. Ghassan Hitto recebeu 35 dos 49 votos em uma votação da Coalizão Nacional Síria - que reúne várias organizações que se opõem ao regime de Bashar Assad - em Istambul. Não está claro, porém, se os vários grupos insurgentes que lutam no terreno contra Assad aceitarão se submeter a Hitto.

O objetivo da coalizão opositora é formar um governo interino que concorra com o regime de Damasco. Se de fato conseguirem unificar seu comando, os rebeldes devem ainda ser reconhecidos em breve como legítimos representantes da Síria por vários países europeus e árabes, ou até mesmo pelos EUA, como ocorreu com a oposição líbia que lutava contra Muamar Kadafi. Por duas vezes, a coalizão síria havia fracassado na escolha de um representante político.

"Sinto falta de minha mulher e de meus filhos. Espero vê-los em breve", disse Hitto, ao ser escolhido. Questionado sobre seus primeiros planos, o "premiê da oposição" esquivou-se: "Conversaremos sobre isso amanhã".

Horas antes da escolha de Hitto, o líder da principal força rebelde síria deu ontem seu apoio à formação de um governo provisório para administrar áreas controladas pelos insurgentes. O general Salim Idris disse a jornalistas que os combatentes do Exército Sírio Livre (ESL), o principal grupo rebelde, passarão a atuar sob o comando do governo provisório e assumirão a responsabilidade de proteger seus membros.

"Reconhecemos a coalizão (de grupos rebeldes) como nosso escudo político e esperamos que este governo consiga ser formado por vontade unânime e exerça seus poderes em toda a Síria", afirmou Idris, chefe de gabinete do ESL. "Nós o consideramos o único governo legal no país."

Divisões. Outros líderes rebeldes mostraram-se reticentes. "Como um civil pode vir e dizer 'deixe de lado suas armas, chegou minha vez de governar'?", afirmou Adib Shishakly, representante da coalizão junto ao Conselho de Cooperação do Golfo, que reúne as monarquias da Península Arábica.

Idris procurou retratar seu grupo como a formação rebelde mais organizada e poderosa na Síria. Mas não se sabe ao certo quantas das centenas de brigadas opositoras que combatem as forças de Assad obedecem a seu comando ou estão ligadas a seu grupo.

Alguns dos grupos rebeldes mais eficiente são formados por extremistas islâmicos que desenvolveram suas próprias redes de apoio. Um deles, o Jabhat al-Nusra, é considerado terrorista pelos Estados Unidos e tem relações com a Al-Qaeda. Idris afirmou que o seu grupo não tem vínculo com o Jabhat al-Nusra.

Ele retomou seu apelo às potências mundiais para armarem os combatentes rebeldes, dizendo que seu grupo garantirá que as armas não caiam em mãos erradas - esta é a principal preocupação dos EUA e de outras potências. "Temos poder e capacidade organizacional para controlar a movimentação dessas armas e mantê-las em mãos seguras e de confiança", disse ele.

Na semana passada, Grã-Bretanha e França pediram à União Europeia que suspenda o embargo de armas à Síria, medida que lhes permitiria enviar legalmente armamento aos rebeldes sírios, mas um dos membros da UE se opôs e não houve decisão a respeito. No mês passado, os EUA prometeram US$60 milhões em ajuda não letal. / AP

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