Oposição vê poder islâmico crescer no Egito

Em referendo polêmico, egípcios aprovam nova Carta Magna do país e devem ter novas eleições em dois meses.

Shaimaa Khalil, BBC

25 de dezembro de 2012 | 18h18

A Comissão Eleitoral do Egito anunciou nesta terça-feira que 63,8% dos eleitores do país aprovaram a polêmica nova Constituição do país no referendo que foi encerrado no último domingo. Cerca de 32,9% dos 52 milhões de eleitores aptos a votar compareceram às urnas.

A divulgação dos resultados chega após violentos confrontos, turbulência política e acusações de fraudes que demandaram investigações.

A maioria dos eleitores disse sim à nova Carta Magna, embora milhares tenham saído às ruas nas últimas semanas em protestos contra os termos do documento.

A consulta popular foi realizada em duas etapas: 15 e 22 de dezembro, e entre as medidas mais imediatas está a convocação de eleições dentro de dois meses.

O documento tem o apoio do atual presidente Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, mas é criticado pela oposição e por segmentos da população.

Antes do anúncio oficial dos resultados, o líder da Irmandade, Mohammed Badie, e Essam El Erian, presidente interino do Partido Liberdade e Justiça, que faz parte da coalizão de governo, já se declaravam confiantes de que a proposta seria aprovada.

Os resultados do referendo se alinham ao contexto da crescente influência islâmica na política do Egito e mostram o quanto os políticos islâmicos do país são organizados e eficientes ao lidar com o processo eleitoral.

Pontos polêmicos

A nova Constituição vai determinar o futuro do país e a relação entre os egípcios e a Presidência, além de outras instituições.

No entanto, para a oposição, da maneira como está agora, a proposta de Constituição vai determinar o futuro do Egito nos termos dos políticos islâmicos.

O principal argumento contra o documento é o de que a Constituição foi escrita por uma assembleia constituinte dominada por parlamentares associados a esses grupos.

Uma outra questão levantada pelos que são contra a nova Constituição é o balanço de poder entre o presidente e o Parlamento.

O papel da Sharia (a lei islâmica) e como ela vai afetar as liberdades pessoais e sociais, além dos direitos das minorias, especificamente a população copta cristã do Egito, é outro ponto polêmico.

Mas, para aqueles que apoiam a Constituição, o documento é um passo na direção da estabilidade do país.

Oposição

A oposição, liderada pela Frente de Salvação Nacional, agora precisa decidir qual será o próximo passo: a convocação de mais protestos, levar o caso à Justiça e pedir a anulação da Constituição ou negociar com o presidente Morsi e o governo para conseguir um acordo.

Dois dias antes da primeira etapa do referendo, os líderes da oposição anunciaram que, não importava qual fosse o resultado, eles se recusariam a aceitar a Constituição.

Eles também afirmaram na mesma entrevista coletiva que fariam de tudo para que ela não entrasse em vigor.

Agora, eles terão que lidar com a nova realidade política e acompanhar os novos eventos. Com a aprovação da nova Carta Magna, uma eleição parlamentar deve ser realizada dentro de dois meses.

E, se forem levadas em conta as indicações deixadas pelas últimas eleições, a Irmandade Muçulmana e seus partidos associados devem ter bons resultados nesta nova votação.

A nova Constituição conseguiu dividir o Egito de uma forma tão profunda a ponto de ser difícil vislumbrar o fim dessa crescente polarização em um futuro breve. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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