EFE/MIGUEL GUTIÉRREZ
EFE/MIGUEL GUTIÉRREZ

Constituinte tomará posse na quinta-feira, anuncia ex-chanceler venezuelana

Opositores convocaram uma grande passeata no mesmo dia para denunciar a ‘ilegitimidade’ do processo, não reconhecido por diversos países, e condenar a prisão de Leopoldo López e Antonio Ledezma

O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2017 | 08h17
Atualizado 02 Agosto 2017 | 14h42

CARACAS - A Constituinte do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tomará posse na quinta-feira no Parlamento, de maioria opositora, informou a ex-chanceler Delcy Rodríguez, que foi eleita membro da Assembleia.

"Chegaremos amanhã com os retratos do Libertador Simón Bolívar e do comandante Chávez ao Palácio Legislativo, de onde nunca mais sairão", afirmou ela nesta quarta-feira, 2, em um comício em Caracas, depois de receber sua credencial como integrante da Assembleia que reformará a Constituição do país.

Mais cedo, a oposição venezuelana decidiu adiar também para quinta-feira a grande passeata contra a instalação da Assembleia Constituinte, um “suprapoder” que regerá o país por tempo indeterminado. A manifestação estava prevista para ocorrer nesta quarta-feira.

"Atenção: a passeata contra a fraude constituinte será nesta quinta-feira, dia no qual a ditadura pretende 'instalar' a fraude", publicou o dirigente Freddy Guevara em sua conta no Twitter.

A mobilização pretende denunciar a "ilegitimidade" da Assembleia Constituinte, não reconhecida por vários países, incluindo os EUA, e condenar a detenção dos opositores presos Leopoldo López e o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, acusados de planejar uma fuga e convocar um boicote à votação convocada por Maduro. Os dois foram levados para a prisão militar de Ramo Verde, nas proximidades da capital Caracas.

O percurso da passeata ainda não foi revelado, mas deve tentar chegar ao Palácio Legislativo, sede do Parlamento, de maioria opositora, que em breve também será a sede da Assembleia Constituinte.

Mas em quatro meses de protestos da oposição, que já deixaram mais de 100 mortos, as manifestações não conseguiram se aproximar em nenhum momento do centro de Caracas, onde se concentram os poderes públicos e área que é considerada um reduto chavista.

López e Ledezma foram levados de suas casas por agentes do Serviço de Inteligência (Sebin) na madrugada de terça-feira. Segundo o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), eles foram presos por supostos planos de fuga e suas declarações políticas.

López não podia "fazer nenhum tipo de proselitismo político" e Ledezma tinha "a obrigação de se abster de fazer declarações a qualquer meio", assinalou um comunicado do TSJ. A oposição venezuelana e os advogados de defesa de López e Ledezma negaram de forma contundente que os dois líderes tivessem a intenção de fugir.

O presidente americano, Donald Trump, afirmou que Maduro é "pessoalmente responsável" pelo estado de saúde de López e Ledezma, que "são presos políticos detidos ilegalmente pelo regime" venezuelano. "Reiteramos nosso pedido pela libertação imediata e incondicional de todos os presos políticos" na Venezuela. "Os EUA condenam as ações da ditadura de Maduro. Esta ação é mais uma prova do regime autoritário de Maduro.”

O Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU declarou que está "profundamente preocupado" com as prisões e pediu a Caracas que liberte todos aqueles que exercem os seus direitos democráticos.

López, de 46 anos, estava em prisão domiciliar desde o dia 8 de julho, depois de passar três anos e cinco meses na prisão militar de Ramo Verde, onde cumpria uma pena de quase 14 anos. Ele foi acusado de instigar a violência nos protestos de 2014 contra Maduro, que deixaram 43 mortos.

Ledezma, de 62 anos, foi detido em fevereiro 2015, acusado de conspiração e associação para delinquir. Três meses depois, obteve o benefício da prisão domiciliar por motivos de saúde após ser operado de uma hérnia. Ele foi tirado de sua casa de pijama enquanto uma vizinha gritava por socorro, segundo imagens divulgadas nas redes sociais. Sua mulher, Mitzy Capriles, qualificou a ação de "sequestro" e pediu, da Espanha, que uma "equipe de legistas" o examine. "Temos uma profunda angústia".

Em um vídeo divulgado nas redes sociais e gravado antes de ser preso, López deu a entender que sua mulher, Lilian Tintori, atualmente nos EUA, estaria grávida do terceiro filho. "Aqui há outra razão para lutar pela Venezuela, que foi uma das melhores notícias que recebi, ou a melhor que recebi nos últimos três anos e meio", disse o opositor sorridente, enquanto acariciava a barriga de sua esposa.

A Venezuela, que sofre uma severa crise econômica, entrou em uma nova etapa do conflito político com a eleição dos 545 representantes da Constituinte, que modificará a Carta Magna de 1999, aprovada no governo do presidente Hugo Chávez, morto em 2013. / AFP

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