Miraflores Palace/Handout via REUTERS
Miraflores Palace/Handout via REUTERS

Oposição venezuelana congela diálogo com governo e luta para reconstruir credibilidade

Coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD) acusa chavismo de não cumprir os acordos estabelecidos; para líder opositor, negociações foram mal planejadas

O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2016 | 09h25

HAVANA - A suspensão do diálogo na Venezuela fechou um ciclo na crise política do país: a saída antecipada do poder do chavismo foi descartada por enquanto e a oposição enfrenta o desafio de reconstruir sua credibilidade. Acusando o governo de não cumprir o acordado, a coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD) congelou os diálogos iniciados no dia 30 de outubro, com o acompanhamento do Vaticano e da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), que tentavam salvar o processo.

O principal objetivo da MUD era uma saída eleitoral à crise, assim como a reativação do processo para um referendo revogatório - suspenso no dia 20 de outubro - contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ou o adiantamento das eleições de 2018. Mas o chavista, que já disse que manterá a mesa de negociações, assegura que esse tema e a libertação de opositores presos nunca estiveram na agenda.

Os documentos surgidos nas negociações falam vagamente da definição de um "cronograma eleitoral". O secretário-executivo da MUD, Jesús Torrealba, insistiu na quarta-feira que esse ponto deve incluir o adiantamento das eleições presidenciais.

Após o congelamento dos diálogos, "o governo saiu pela ameaça do revogatório", disse Benigno Alarcón, especialista em negociação política. Para substituir o chavismo no poder, a oposição deveria realizar o referendo antes de 10 de janeiro, quando Maduro completará quatro anos de mandato. Do contrário, mesmo que fosse revogado, seu vice-presidente cumpriria o período de seis anos, segundo a Constituição.

"O mais seguro é que se chegue em 11 de janeiro sem o mecanismo de troca e entremos em uma dinâmica distinta, porque a saída do governo não vai acontecer, pelo menos dentro das regras constitucionais sobre o revogatório", advertiu Alarcón. Conseguir uma saída eleitoral "seria por um acordo entre as partes e não porque as oposição possui as ferramentas para conquistá-la."

Oposição. Diante da suspensão dos diálogos, os mediadores propuseram um prazo até o dia 13 de janeiro para criar mecanismos de verificação dos acordos. "Esqueçam-se de nossa participação à mesa, nem em 13 de janeiro nem em nenhuma outra data. Se o governo não cumprir, não participaremos", notificou o delegado da MUD na mesa, Carlos Ocariz.

Apesar da firmeza que tenta transmitir, a oposição evidencia fissuras derivadas do diálogo, ao qual vários partidos da coalizão nunca participaram. Ela aceitou negociar quando parecia ter encurralado o governo: centenas de milhares de seguidores estavam dispostos a intensificar a pressão nas ruas para exigir o referendo e o Parlamento, de maioria opositora, se preparava para sancionar Maduro por sua suposta responsabilidade na crise.

"O diálogo beneficiou a estratégia oficialista de desmobilizar seus adversários e ganhar tempo", assinalou o cientista político Édgard Gutiérrez. Com o andamento do governo respirando e sem conquistas na mesa, a oposição está sendo "questionada". "Agora resta reconstruir sua credibilidade e o apoio que tinha antes de entrar no processo", destaca Alarcón.

Um dos principais líderes da coalizão, Henrique Capriles, admite que as negociações foram mal planejadas pela oposição. "Um ano depois (do triunfo nas eleições legislativas) o governo está mais fraco. Mas a oposição está mais forte? Não, não está, e isso tem que ser esclarecido", afirmou Capriles.

O ex-candidato à presidência foi mais longe ao denunciar que líderes opositores recebem suborno para vazar informações ao governo e pediu um expurgo. "O governo ganhou terreno para sua próxima batalha: produzir uma séria divisão no campo opositor", disse Gutiérrez.

A MUD falhou ao aceitar o diálogo sem ter nas mãos uma alternativa que obrigasse o governo a ceder, como as mobilizações ou a pressão legislativa, afirmou Alarcón. "Hoje não há uma ameaça real sobre o governo que lhe diga que ganhará mais com um acordo do que sem ele."

Veja abaixo: Maduro descarta saída eleitoral para crise política

Entretanto, o Parlamento poderia retomar sua ofensiva contra Maduro, mesmo que não esteja habilitado em razão de uma declaração de "desacato" do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), o qual a MUD acusa, assim como o poder eleitoral, de serem apêndices do chavismo. Ainda assim, os especialistas não veem a curto prazo mudanças significativas no panorama político. "Entramos em recesso de Natal", lembrou Alarcón. / AFP

Mais conteúdo sobre:
Venezuela Vaticano Unasul Nicolás Maduro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.