REUTERS/Jose Issac Bula Urrutia
REUTERS/Jose Issac Bula Urrutia

Oposição venezuelana denuncia manobra chavista para dificultar eleição de governadores

Dia de eleição regional em 23 Estados tem mudanças de centros eleitorais ordenadas por Conselho Nacional Eleitoral, controlado pelo governo

O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2017 | 21h02

CARACAS - A oposição venezuelana, que tenta mudar o cenário político regional no país obtendo o controle de mais Estados dos que os atuais três – Lara, Miranda e Amazonas –, denunciou neste domingo, 15, “irregularidades e obstáculos” durante a eleição para governador nos 23 Estados, no que chamou de uma “luta épica” contra o chavismo. 

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Durante a votação, considerada um termômetro do apoio que Nicolás Maduro ainda tem diante da crise econômica e o desabastecimento no país, atrasos, mudanças de centros eleitorais e propaganda pró-candidatos do governo foram algumas das reclamações. 

Segundo a chefe do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), a chavista Tibisay Lucena, a votação de ontem ocorreu “em clima de tranquilidade” e os centros eleitorais abriram em “tempo recorde”, apesar de terem acontecido problemas com algumas urnas eletrônicas. No entanto, líderes opositores afirmaram que aparatos leais ao governo Maduro tentaram atrasar ou impedir a votação.

O ex-candidato presidencial Henrique Capriles afirmou que 11 mil eleitores de Miranda aguardavam em filas para votar, mas foram enviados para outro centro, que, segundo o opositor, não tinha capacidade de atender a todos. 

A mudança de pontos de votação também foi denunciada em outros Estados. Em alguns casos, os eleitores precisaram andar quilômetros entre um local e outro ou passar de redutos opositores para bairros chavistas. 

Em uma escola no nordeste de Caracas, uma placa informava que os eleitores estavam registrados em um centro dentro de uma favela próxima. “Eles colocam esse obstáculo para que a gente desista e volte para a casa”, reclamou o empresário Ignacio Sánchez, enquanto esperava ao lado de dezenas de vizinhos para pegar um dos ônibus que a oposição prometeu enviar e ir até o novo local onde estava registrado para votar. 

Um homem explicou que o filho mais velho voltou para casa porque não queria enfrentar as dificuldades de votar em outro lugar. “Mas é isso que eles querem. Votar é resistir”, afirmou Maria de Alba, de 74 anos.

Dias antes da eleição, o CNE havia determinado a realocação de mais de 200 centros eleitorais em 16 Estados, alegando questões de segurança, o que impactou 715 mil eleitores. 

Segundo a oposição, os centros fechados ficavam em distritos onde opositores poderiam obter a maioria dos votos, mas o CNE afirmou que eram áreas onde ocorreram boa parte dos protestos entre abril e agosto contra o regime Maduro – que terminaram com 125 mortos. 

O chefe de campanha da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), Gerardo Blyde, disse que muitos pontos de votação abriram mais tarde do que o previsto por falta de luz, defeitos nas urnas ou ausência de membros do poder eleitoral.

Em Maracaibo, segunda maior cidade venezuelana, testemunhas relataram nas redes sociais que grupos de homens mascarados quebraram janelas de carros e jogaram coquetéis molotov contra uma tenda da oposição. Além disso, neste domingo ainda era possível ver propagandas dos candidatos governistas em canais oficiais. 

Condições. 

A primeira eleição para governador desde 2012 ocorre com um ano de atraso, mas é vista pela oposição como um plebiscito contra o presidente Maduro. Após quatro meses de protestos contra o governo, a MUD tenta agora retomar a luta e demonstrar que ainda é maioria, no primeiro duelo eleitoral desde sua vitória nas legislativas de 2015, quando a oposição rompeu a hegemonia chavista de 18 anos.

Observadores dizem acreditar que a apuração dos resultados será um teste de quanto espaço Maduro está disposto a ceder à oposição. O presidente avisou na semana passada que os eleitos que não jurarem lealdade à Assembleia Constituinte não vão tomar posse. O alerta foi repetido ontem pelo número dois do chavismo, Diosdado Cabello. A MUD descartou a possibilidade de seguir a ordem, o que pode levar a novos conflitos no país.

Apesar de a MUD ter maioria no Parlamento atualmente, o poder do Legislativo foi anulado pela Justiça – acusada de atuar em favor do governo – e algo similar pode ocorrer com os governadores em função da Constituinte.

Enquanto o chavismo tentava se manter no poder na maior parte dos 20 Estados que hoje comanda, a oposição enfrentava também o obstáculo da divisão: alguns defendiam que a população saísse para votar, mas outros acreditavam que a abstenção era a forma de continuar protestando porque a votação seria uma maneira de legitimar o governo Maduro.

“Se eu sair para votar vou estar me contrariando. Tantas mortes em protestos e foi tudo por uma eleição? Os políticos são todos iguais. Se eu votar pela oposição, o governo não vai deixar ela trabalhar”, afirmou Janeth Hernández na Plaza Francia, epicentro dos protestos opositores. / AFP, REUTERS e WASHINGTON POST

 

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