REUTERS/Christian Veron
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Oposição venezuelana denuncia prisões após invasão de militares à casa onde políticos se reuniam

Ação teria ocorrido sem mandado de busca e sem a presença de promotores do Ministério Público; opositores denunciam que María Corina Machado foi golpeada por membros do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional

O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2017 | 11h00
Atualizado 23 de junho de 2017 | 19h03

CARACAS - A coalizão opositora venezuelana Mesa de Unidade Democrática (MUD) acusou o serviço secreto do presidente Nicolás Maduro de invadir sem autorização judicial o apartamento de um de seus membros onde ocorria uma reunião política na madrugada de ontem. Ao menos cinco pessoas foram presas. Estavam na reunião membros de nove partidos da MUD. A operação ocorreu no bairro de Altamira - área nobre na zona leste de Caracas. 

A MUD condenou a operação, conduzida por agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) sem um mandado de busca e sem a presença de promotores do Ministério Público. Entre os detidos, estariam Aristides Moreno - que foi vice-ministro do ex-presidente Carlos Andrés Pérez -, e Roberto Picón, além de uma empregada da casa que trabalhava no local . O grupo que vinha se encontrando em sua casa era formado por líderes opositores que discutiam estratégias de mobilização para os protestos contra o governo de Maduro. 

Horas antes da invasão dos militares à residência, o presidente afirmou que haveria uma operação em um “local clandestino” onde estariam ocorrendo encontros “subversivos”, sem dar maiores detalhes.

Em entrevista ao Estado, Maria Corina, que disse ter sido agredida na invasão, qualificou a operação de “um sequestro de cidadãos em sua própria residência, uma atitude própria de uma ditadura”.

“Por volta das 20h, ficamos sabendo que havia uma operação de buscas em uma residência no bairro de Altamira. Então, descobrimos que se tratava da casa de Aristides Moreno, onde vários membros de diferentes partidos políticos da Unidade (oposição) haviam feito algumas reuniões nos últimos dias para coordenar as ações em favor da democracia”, descreveu.

Maria Corina relatou, então, que foi com um grupo de opositores ao local para verificar o que estava ocorrendo. 

“Ficamos diante de uma barreira de funcionários do Sebin, que eram mais de 50 com vários veículos. Ao nos aproximarmos, pudemos ver que estavam levando detidos o sr. Aristides Moreno e Roberto Picón, o diretor técnico da MUD.” 

Desde o início de abril, protestos têm ocorrido diariamente em diversas cidades da Venezuela, incluindo a capital, Caracas, depois de o Judiciário, ligado ao chavismo, anular as competências da Assembleia Nacional, controlada pela oposição. A onda de violência que vem recrudescendo desde então já deixou 75 mortos no país, além de milhares de feridos.

“Os líderes de partidos democráticos estão exercendo o direito à reunião, que é um direito constitucional e um direito humano. Na Venezuela, as garantias não foram suspensas, portanto, temos pleno direito a nos reunirmos como dirigentes de diferentes partidos políticos”, acrescentou Maria Corina.

Além de Moreno e Picón, a reportagem apurou que também foram detidas outras 3 pessoas - entre elas, pelo menos uma seria funcionária da casa. Durante a madrugada, um grupo de deputados opositores foi a uma das sedes do Sebin em Caracas, na Praça Venezuela, mas foi informado de que os detidos não estariam ali. 

Em seguida, o mesmo grupo seguiu para um outro edifício de comando do serviço de inteligência, conhecido como “Helicóide”, mas não conseguiu descobrir se os presos na casa de Moreno estavam no local. A reportagem pediu ao governo venezuelano esclarecimentos sobre a ação do Sebin, mas não obteve resposta. 

Uma outra operação policial num bairro próximo terminou com a prisão de 15 jovens que organizavam protestos contra o governo chavista na manhã de ontem. Três deles foram detidos também numa invasão em um apartamento no bairro de Los Palos e outros 12, numa praça, próxima, onde organizavam alimentos e remédios que seriam distribuídos nos protestos de ontem. 

Segundo um policial que pediu anonimato, a operação ocorreu por volta das 10h, quando cinco agentes do Sebin chegaram à Praça Los Palos Grandes e invadiram um apartamento. 

Após prender cinco jovens que estavam em um apartamento num edifício próximo à praça, pediram documentos a outros 12 que preparavam um protesto e os levaram. / FELIPE CORAZZA, COM EFE

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