REUTERS/Marco Bello
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Chavismo reprime greve liderada pelo setor privado; mortes chegam a 99

Paralisação convocada pela oposição contra Constituinte obteve apoio da cúpula empresarial, das câmaras de comércio e indústria e dos sindicatos, mas setores controlados pelo governo, como o petrolífero e de serviço público, não participaram

O Estado de S.Paulo

20 Julho 2017 | 11h56
Atualizado 20 Julho 2017 | 20h15

CARACAS - A Venezuela ficou parcialmente paralisada nesta quinta-feira, 20, pela greve geral convocada pela oposição para exigir que o presidente Nicolás Maduro cancele a eleição de uma Assembleia Constituinte, marcada para o dia 30, com a qual, segundo os opositores, ele busca se manter no cargo. Duas pessoas morreram e outras três ficaram feridas durante protesto hoje em Los Teques, periferia de Caracas, e mais de 80 pessoas foram detidas em todo o país.

Lojas permaneceram fechadas em várias cidades. Barricadas bloqueavam ruas vazias. Apenas o metrô de Caracas funcionou, com um número reduzido de passageiros. Maduro disse ter vencido a oposição ao destacar que setores-chave da economia se encontravam operacionais.

“Voltamos a triunfar, agora rumo ao domingo, dia 30, de vitória em vitória, moral máxima”, afirmou Maduro ao referir-se à data da eleição dos membros da Constituinte. O presidente assegurou que 100% das indústrias básicas e dos setores petrolífero, energético e do serviço público estavam trabalhando. Maduro só reconheceu falhas no serviço de ônibus urbanos. “Eles que nunca trabalharam que fiquem sem trabalhar. Vamos é em frente”, afirmou.

A paralisação de 24 horas começou às 6 horas (7 horas em Brasília) e intensificou as manifestações que deixaram 99 mortos desde 1.º de abril. A oposição convocou a greve geral, impulsionada pelos 7,6 milhões de votos do plebiscito simbólico que realizou no domingo passado contra Maduro.

A greve contou com o apoio da cúpula empresarial, das câmaras de comércio e indústria, de parte dos sindicatos, de estudantes e funcionários dos transportes. A estratégica indústria petrolífera e o setor público, com quase 3 milhões de empregados, são controlados pelo governo e não aderiram à paralisação.

“Tenho sete operários e vou pagar o dia a eles. Não importa que percam o dia de trabalho, se estamos perdendo um país. Eu me somo à greve para resgatar o pouco que nos resta da Venezuela”, afirmou Omar, de 34 anos, dono de uma pequena construtora em Caracas.

O estudante e comerciante Andrew Fuentes, também da capital, afirmou: “Há pessoas nas ruas, mas estão trancando as vias e muitas lojas estão fechadas. As empresas foram obrigadas a funcionar, se não seriam fechadas, mas com as ruas trancadas, as pessoas não conseguiram sair de casa. A paralisação está funcionando. Não consigo sair da região de onde estou desde quarta-feira, porque as ruas estão fechadas.” 

O impopular governo de Maduro também sofre uma forte pressão internacional para desistir de seu projeto, mas o presidente venezuelano insiste em dizer que a Constituinte prosseguirá “pela paz e pela recuperação econômica do país”.

“Essa paralisação é um embate de força entre um empresariado e uma população famélica e pauperizada e um governo também quebrado que controla os poucos recursos de um país produtor de petróleo”, afirmou o presidente do instituto Datanálisis, Luis Vicente León.

Sanções. Os empresários, a quem Maduro acusa de travar uma “guerra econômica” para derrubá-lo, apoiam a greve, alegando que a Assembleia Constituinte instaurará um modelo econômico que vai piorar a crise do país, afetado por uma severa escassez de alimentos e de remédios, assim como por uma inflação voraz.

Pressionado por destacados políticos americanos, o governo do presidente Donald Trump estuda impor sanções contra a Venezuela e até mesmo vetar as importações de petróleo venezuelano se Maduro levar adiante a votação para a Constituinte. 

Um terço dos 2,1 milhões de barris diários de petróleo da Venezuela é exportado para os EUA. As sanções ao petróleo poderiam limitar o acesso da indústria petrolífera venezuelana aos mercados financeiros americanos. / AFP, EFE e W. POST

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