REUTERS/Marco Bello
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Oposição venezuelana prevê briga longa com Maduro 

Nas últimas semanas, presidente perdeu alguns aliados na cúpula militar, mas Forças Armadas se mostram mais leais que o esperado

Redação, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2019 | 05h00

CARACAS - A oposição venezuelana acredita que a combinação de protestos de rua com a oferta de ajuda humanitária na fronteira é crucial para manter a pressão contra o presidente  Nicolás Maduro sem que o chavista sobreviva politicamente à crise atual. Aliados do líder opositor  Juan Guaidó, no entanto, já admitem que deve levar semanas ou até meses até que o líder bolivariano deixe o poder. 

Nas últimas semanas, Maduro perdeu alguns aliados na cúpula militar, mas seu entorno mais próximo, tanto nas Forças Armadas quanto na burocracia estatal, tem se mostrado mais leal do que o esperado pelos Estados Unidos e a oposição. 

“Ninguém pode prever o quanto isso pode durar”, disse Juan Andrés Mejía, colaborador próximo de Guaidó. “Eu queria que fossem dias, mas devem ser semanas ou até meses.”

Antes dos protestos de ontem, Guaidó disse que a mobilização pela entrega de ajuda humanitária internacional era uma “fase inicial” da estratégia da oposição contra Maduro. 

“Sabemos que não é o suficiente e é por isso que insistimos na necessidade da entrada da ajuda humanitária”, disse o líder opositor, que se declarou presidente interino da Venezuela em janeiro. Guaidó foi reconhecido por quase 50 países, entre eles o Brasil. “O corredor humanitário deve ser aberto para cuidar de até 300 mil venezuelanos que correm o risco de morrer”, disse.

Especialistas na crise venezuelana avaliam que as sanções ao petróleo do país anunciadas na semana passada pelos Estados Unidos são as mais duras já impostas pela Casa Branca no passado recente. Elas não permitem, como foi o caso do Iraque no regime de Saddam Hussein, por exemplo, a troca de petróleo por comida. 

“As sanções devem ter um impacto enorme numa crise humanitária que já é terrível se o impasse continuar”, disse Michael Shifter, do Diálogo Interamericano. “Obviamente, os Estados Unidos estavam convencidos de que as sanções seriam o golpe final contra Maduro e o colapso seria uma questão de dias, mas subestimaram a resistência do regime diante da pressão doméstica e internacional.”

Em outros casos ao longo da história, regimes autoritários, como Irã, Cuba e Coreia do Norte, conseguiram sobreviver por um longo tempo apesar da pressão diplomática e de sanções. No caso da Venezuela, analistas alertam para o risco de um maior agravamento da crise humanitária provocada pela escassez de alimentos, remédios e serviços básicos. 

A oposição e o governo americano calculam que, sem o dinheiro do petróleo, aliados internos de Maduro, como as Forças Armadas, se voltarão contra ele quando o volume de recursos em dólar diminuir. O problema é que o chavismo, ao controlar a moeda estrangeira e praticamente todas as importações de alimentos e remédios, já usa a escassez como moeda para comprar a lealdade de eleitores e aliados políticos. 

“Quando um país fica mais pobre, às vezes o governo fica mais poderoso, pois se torna o único provedor dos meios de sobrevivência”, avalia o economista Francisco Rodríguez, da consultoria Torino Capital. 

Cautela

Diferentemente do que ocorreu nas últimas duas ondas de protestos da oposição contra o chavismo, em 2014 e em 2017, o governo tem usado menos a força contra os antichavistas. Em bairros populares, tradicionais núcleos de apoio ao chavismo, pequenos atos foram reprimidos com a ajuda de coletivos (paramilitares) leais ao governo. Mas as manifestações convocadas pela oposição têm sido relativamente pacíficas, exceto o primeiro dia de protestos, em 23 de janeiro. 

A reação de Maduro tem sido basicamente retórica. Nas redes oficiais do governo, o apelo é de lealdade. O presidente tem aparecido em exercícios militares e cerimônias com promessas de entrega de recursos e investimentos. 

“Há uma guerra midiática em curso para convencer o mundo de que é proibido investir na Venezuela”, disse ontem o presidente ao lançar um programa para impulsionar o turismo no país, que tem a taxa de homicídios mais altas do mundo. / WASHINGTON POST

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