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Oposição venezuelana quer assinar acordo contra Constituinte com chavistas críticos à medida

Segundo a coalizão opositora MUD, a intenção é ter um documento com a maior participação possível da sociedade; neste sábado, novos protestos ocorreram em Caracas

O Estado de S.Paulo

01 Julho 2017 | 16h15

CARACAS - A coalizão opositora venezuelana Mesa da Unidade Democrática (MUD) anunciou na sexta-feira 30 de junho a intenção de assinar um acordo na próxima semana com setores do chavismo críticos à convocação de uma Assembleia Constituinte por parte do presidente Nicolás Maduro.

"Vamos assinar na segunda-feira um grande acordo da sociedade contra a imposição do totalitarismo do regime e para trabalhar em unidade pela restituição da ordem constitucional", afirmou a opositora María Corina Machado. "Estamos convocando as universidades, estudantes, sindicatos, ONGs, empresários, organizações comunitárias e partidos políticos; inclusive setores chavistas que têm manifestado sua rejeição à Constituinte", explicou a ex-parlamentar.

Segundo Corina, o acordo também "busca acabar com a ditadura e iniciar um processo de transição democrática".

Gonzalo Gómez, dirigente da Maré Socialista, uma das principais organizações do chavismo crítico a Maduro, disse que não foi contatado pela oposição para do ato na segunda-feira. "Não tenho conhecimento deste documento. Estamos defendendo a Constituição da nossa própria perspectiva. Se formos contatados, vamos avaliar, entendemos a necessidade de se defender as liberdades democráticas".

A MUD afirmou que manterá os protestos contra Maduro para evitar a eleição de uma Assembleia Constituinte, que considera uma "fraude" para perpetuar o chavismo no poder.

Neste sábado, 1º de julho, a oposição voltou às ruas, no momento em que se completam três meses dos maiores protestos contra Maduro. "Todos às ruas para advertir e fazer desconhecer essa manobra", declarou no Twitter o vice-presidente do Parlamento, deputado Freddy Guevara.

O presidente venezuelano insiste que sua iniciativa para reformar a Constituição trará paz ao país - em meio aos protestos que já deixaram 78 mortos - e possibilitará a recuperação econômica.

O dirigente opositor Edinson Ferrer anunciou, durante a entrevista da MUD, que na segunda-feira 3 também se formarão "comitês pelo resgate da democracia", encarregados de organizar as próximas manifestações.

Desde seu início em abril, as manifestações aconteceram quase todos os dias, levando, com frequência, a confrontos violentos e saques. Entre 1º de abril e 19 de junho de 2017, foram registrados 2.675 protestos, que deixaram mais de mil feridos, de acordo com o Observatório Venezuelano de Conflitividade Social (OVCS). A ONG Foro Penal relata que, nesse período, mais de 3.500 pessoas foram detidas.

Na sexta-feira, em Barquisimeto (350 km ao oeste de Caracas), homens encapuzados atiraram contra manifestantes que haviam erguido barricadas. Segundo o deputado da oposição Alfonso Marquina, o ataque deixou quatro mortos. O Ministério Público confirmou apenas um desses óbitos. Nessa localidade, um militar teria ficado ferido, segundo as autoridades. 

O analista Mariano De Alba considera que o conflito vai-se intensificar. "O governo insiste em sua proposta de Constituinte, o que, caso se concretize, contribuirá para a escalada do conflito. Governo e oposição ainda pensam que podem se impor um ao outro. Não vejo condições para uma negociação", disse.

O cientista político Ricardo Sucre também prevê uma escalada da tensão, com a proximidade da votação da Constituinte, em 30 de julho. "É muito alta a possibilidade de que atos inesperados de violência ocorram".

Futuro. Na terça-feira 4, a procuradora-geral Luisa Ortega deve comparecer ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que avaliará se ela será processada. Uma decisão nesse sentido pode levar à sua destituição do cargo. Ortega já está proibida de deixar o país e teve seus bens e contas congelados. 

A procuradora chavista se afastou do governo nas últimas semanas, denunciando uma ruptura da ordem constitucional por decisões do TSJ que reduziram os poderes do Legislativo, e também travou uma batalha judicial contra os magistrados da corte e contra a Assembleia Constituinte. Todos os seus recursos foram indeferidos pela corte. /AFP

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