Oposição venezuelana se une contra biometria

Partidos que não participavam de protestos prometem sair às ruas contra sistema para monitorar compras por impressões digitais, criado por Maduro

GUILHERME RUSSO, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2014 | 02h02

A Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão opositora da Venezuela, usou ontem os meios de comunicação do país para convocar protestos "pacíficos" para amanhã, às 20 horas, contra o sistema de monitoramento biométrico que o governo de Nicolás Maduro pretende implementar no país no fim de novembro.

Mas desta vez - diferentemente do que ocorreu em fevereiro, durante as violentas manifestações contra o chavismo - o partido Primero Justicia (PJ) juntou-se à convocatória para as mobilizações de rua.

Em rede nacional, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, declarou que "o captador de impressões digitais é um sistema liberador (...) e será progressivo". Ele destacou que o programa é "voluntário" e o superintendente de Preços Justos ouviu de "todos" os donos de supermercados do país que os empresários estão de acordo com o novo sistema.

No início do ano, o partido Voluntad Popular (VP) - do opositor Leopoldo López, que está preso acusado de incitar a violência nos protestos antigoverno - e o movimento Vente Venezuela, de María Corina Machado, comandaram o movimento denominado de "A Saída", que exigiu, por meio de manifestações de rua, a renúncia de Maduro e a mudança no modelo econômico do país. Confrontos ocorridos durante as manifestações deixaram 43 mortos.

O PJ, porém, liderado pelo governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, ficou de fora dos protestos, defendendo uma transição democrática na Venezuela. Em entrevista ao Estado, o deputado Alfonso Marquina, dirigente do partido, declarou que o fato de sua legenda estar agora convocando manifestações contra a decisão do governo de monitorar o consumo de alimentos e itens básicos por meio do registro de impressões digitais dos venezuelanos não representa uma mudança de política. "O Primero Justicia nunca acompanhou os protestos violentos, mas sempre defendeu o direito constitucional aos protestos pacíficos. Não houve mudança de política. Defendemos manifestações desde que sejam constitucionais e pacíficas - isso é um direito", declarou Marquina.

O deputado afirmou que o sistema de monitoramento do comércio por meio de impressões digitais dos consumidores "não vai resolver o desabastecimento nem a inflação", comparando a futura medida, como seus colegas da oposição ao chavismo, à caderneta de racionamento cubana - pela qual o governo de Raúl Castro fornece alimentos e itens básicos com preços subsidiados aos habitantes da ilha socialista. "Temos é de aumentar a produção (da indústria venezuelana)."

'Humilhação'. "É lamentável que o governo acuse todos os venezuelanos de contrabando. Há altos funcionários do governo Maduro e membros das Forças Armadas envolvidos nesse crime. Não é o povo que tem de pagar, quem tem de pagar são os estelionatários, os contrabandistas e os corruptos do governo", disse Marquina, afirmando considerar uma "humilhação" para os venezuelanos ter de registrar cada compra de alimentos ou itens básicos com suas digitais. "Não se deve responder à violência do governo com violência. Além de protestos pacíficos, podemos não aceitar usar os captadores de impressões digitais. Quando o povo se une, nenhum governo pode lhe impor nada."

De acordo com uma pesquisa da consultoria Datanálisis divulgada ontem pela imprensa venezuelana, 80% consideram negativa a situação do país em razão da atual crise e 63% avaliam de forma negativa a gestão de Maduro. Em evento de seu partido, o presidente afirmou que não mudará suas políticas em razão de "números chantagistas". "Que eu tenha caído ou subido. Não vivo de pesquisas", afirmou. / COM AFP

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