Oposição venezuelana tem um desafio

Num país com a mídia sob a mira do Estado, protestos expõem a impopularidade do governo tanto quanto a desunião dos opositores

Juan Nagel*, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2014 | 02h04

ARTIGO:

A imprensa venezuelana tem ignorado os protestos que ocorrem há semanas na Venezuela. A maioria dos canais de rádio e TV pertence ao governo ou se sujeita à autocensura. Repórteres que dizem pertencer a algum desses veículos têm contas anônimas no Twitter, o que lhes permite contornar as diretrizes às quais estão sujeitas as empresas a respeito do que pode ser noticiado.

Quanto aos jornais, muitos continuam adotando linhas editoriais contrárias ao governo, que começou a bloquear a concessão de dólares para importar papel. Muitos deixaram de circular e alguns dos mais influentes advertem que podem fechar a qualquer momento. Ao mesmo tempo, o presidente Nicolás Maduro acenou com a adoção de novas normas que regulamentarão a propriedade e o conteúdo dos jornais. Como ocorre em vários lugares do mundo, as redes sociais têm desempenhado o papel que a mídia tradicional se recusa a fazer. Fotografias de estudantes espancados circulam no Twitter e no Facebook. As redes também divulgaram detenções feitas por militares.

O interessante é que os protestos não só expressaram o descontentamento com o governo, mas também contribuíram para revelar os conflitos internos da oposição. Henrique Capriles, candidato presidencial derrotado, distanciou-se publicamente dos atos. Os principais organizadores da oposição, a deputada María Corina Machado e Leopoldo López, são considerados a maior ameaça à liderança de Capriles.

Os venezuelanos suportaram 15 anos de chavismo, período com maciços protestos de rua. A maioria deles tinha como alvo Hugo Chávez, morto há quase um ano. Em 2002, os manifestantes queriam sua renúncia. Em 2007, exigiram que ele reabrisse uma estação de TV. Perderam em ambos os casos.

A sensação entre líderes da oposição e militantes é que protestar contra um governo autoritário com receitas petrolíferas enormes é praticamente inútil. O que mudou? A composição das massas. Os estudantes de hoje eram jovens demais em 2002. Eles não sofreram a decepção de seus parentes naquela época. O que causa desafios mais sérios: os protestos são inflamados, mas também desorganizados.

Querem que o governo de Maduro termine, mas não têm uma visão clara de como conseguir. Eles não acreditam que seja possível fazer eleições limpas, porque o governo domina as instituições públicas, e não querem um "golpe". Falta objetividade. Os manifestantes agora entram em confronto com um governo que quer enfrentar os manifestantes com gangues armadas semelhantes à milícia basij do Irã, que se destacou na repressão aos protestos de 2009. O movimento enfrenta muitos obstáculos, internos e externos. Por isso, seu futuro é duvidoso.

*Juan Nagel é editor do blog Caracas Chronicles.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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