AFP PHOTO / FEDERICO PARRA
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Oposição venezuelana troca comando

Depois de Maduro nomear vice-presidente conhecido pelo radicalismo, MUD elege novo presidente ‘cerebral’ para Assembleia Nacional

O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2017 | 19h44

CARACAS - Em dois dias, o chavismo e a oposição na Venezuela renovaram postos-chave no Executivo e no Legislativo, de olho em novas estratégias para 2017. O opositor Julio Borges foi eleito ontem o novo presidente da Assembleia Nacional, controlada pela oposição, um dia depois de o presidente Nicolás Maduro nomear o governador de Aragua, Tareck El Aissimi como vice-presidente. 

Com a posse da nova mesa diretiva da Assembleia, a oposição planeja colocar em marcha o projeto de declarar o cargo de Maduro vago por inépcia. A iniciativa não é nova - foi cogitada no fim do ano passado, mas perdeu força diante da negociação fracassada entre oposição e governo patrocinada pelo Vaticano. Agora, sob o comando de Borges, do Primero Justicia, considerado um opositor mais cerebral que seu antecessor, Henry Ramos Allup, a ideia ganhou força. O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) boicotou a votação por considerar a Assembleia “em desacato”. 

Na noite anterior à eleição da nova cúpula do Parlamento, Maduro disse que a escolha da mesa era “ilegal” e a Assembleia caminhava para a “dissolução”. No entanto, disse ser amigo de Borges e garantiu que ele concordara em acatar as decisões da Justiça sobre a oposição. O deputado nega. 

Em meio a uma série de rusgas internas e disputas de poder, a coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) estuda a melhor maneira de se opor ao chavismo, em meio ao agravamento da crise econômica do país, afetado por severa escassez de alimentos, remédios e produtos de higiene.

“A Assembleia se instala diante das piores dificuldades, em um momento injusto e vergonhoso”, disse Borges. “Está claro que Maduro, ao abandonar a Constituição, abandonou o cargo e isso abre a porta para a convocação de novas eleições.”

De acordo com o novo presidente da Assembleia Nacional, há diversos argumentos para declarar o cargo vago, entre eles os 100 mil assassinatos estimados no país desde 2013, a inflação de 4.200% desde o início do mandato do presidente e a extinção de 1 milhão de empregos. 

Borges é descrito como um opositor moderado e de diálogo. Ganhou proeminência no começo do mandato do presidente Hugo Chávez, durante a greve patronal que resultou no golpe de Estado fracassado contra o presidente. No ano passado, foi agredido por chavistas ao tentar entrar na Assembleia. “Com Borges, pode começar uma fase mais racional da oposição, em meio a um cenário de ebulição”, afirma o sociólogo Luis Salamanca. Do lado chavista, El Aissimi, que se define como um chavista radical, substituiu o moderado Aristóbulo Istúriz. 

Depois de vencer com ampla vantagem as eleições legislativas de 2015, o apoio à MUD recuou de 45% para 38%, segundo pesquisa da Keller e Associados. Após defender ao longo do ano o referendo revogatório do mandato de Maduro, a oposição viu a Justiça eleitoral barrar o processo. / AFP e AP

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