Opositor afegão rejeita derrota e amplia crise

Abdullah Abdullah faz anúncio antes de recontagem dos votos e aprofunda incerteza sobre permanência dos EUA

CLÁUDIA TREVISAN, ENVIADA ESPECIAL / CABUL, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2014 | 02h01

O candidato à presidência do Afeganistão Abdullah Abdullah disse ontem que não aceitará o provável resultado das eleições para a sucessão de Hamid Karzai, o que mergulhou Cabul em uma crise política e aprofundou a incerteza em torno do futuro das forças americanas no país depois do fim das operações de combate, em dezembro.

As declarações de Abdullah frustraram a expectativa dos Estados Unidos de que ele e seu adversário, Ashraf Ghani, formassem um governo de unidade nacional, com a participação no gabinete do segundo colocado na disputa.

No sábado, o presidente Barack Obama telefonou para os dois candidatos e apelou para que ambos fechassem um acordo "o mais rápido possível", com o objetivo de assegurar o apoio internacional e preservar a estabilidade do Afeganistão.

A permanência de forças americanas no país depende da assinatura de um Acordo de Segurança Bilateral que dê imunidade aos soldados e garanta que eles serão julgados nos EUA caso sejam suspeitos de praticar crimes de guerra. O documento foi negociado no ano passado, mas Karzai rejeitou assiná-lo e decidiu transferir essa atribuição a seu sucessor.

Obama não quer repetir no Afeganistão a mesma experiência dos EUA no Iraque, de onde todas as forças americanas saíram no fim de 2011, em razão do fracasso na negociação de um acordo de segurança bilateral.

O objetivo da coalizão liderada pelos EUA é reduzir o número de soldados no Afeganistão dos atuais 44 mil para 14 mil, dos quais 9.800 americanos. As operações de combate seriam encerradas em dezembro e os soldados remanescentes teriam a função de apoiar as forças afegãs e combater o terrorismo.

A ausência de um contingente internacional no Iraque depois de 2011 é apontada como uma das razões do rápido avanço do Estado Islâmico (EI) nos últimos meses, que obrigou Obama a ordenar ataques aéreos no país quase três anos depois de ter declarado encerrado o conflito iniciado por seu antecessor, George W. Bush.

Abdullah e Ghani comprometeram-se a assinar o acordo caso fossem eleitos, mas o impasse político coloca em dúvida a legitimidade e a estabilidade de um eventual governo. As divisões internas aliadas à expectativa de redução da presença estrangeira fortaleceram a insurgência do Taleban, que conquistou posições no sul e realiza incursões em regiões próximas de Cabul.

Como no Iraque, a representatividade do governo é crucial para a coesão das Forças Armadas e a estabilidade do Afeganistão, afirmam analistas. "O que acontece se o país pelo qual você está lutando não tem liderança nem acordo entre as elites? Sem isso, eu não veria com surpresa deserções e um processo de desintegração do Exército", disse Scott Smith, especialista em Afeganistão do United States Institute of Peace.

Ex-ministro das Relações Exteriores, Abdullah liderou o primeiro turno das eleições e acusou Ghani e o governo de Karzai de fraudarem o segundo turno da disputa, realizado em junho.

As suspeitas de irregularidade levaram à recontagem dos votos sob supervisão da ONU, mas Abdullah sustenta que os critérios adotados pelos auditores são insuficientes para identificar a suposta manipulação da votação. O resultado final deve ser anunciado nesta semana.

"Nós somos os vencedores da eleição, com base no voto real do povo", declarou Abdullah ontem, depois de mais uma tentativa fracassada de chegar a um acordo com Ghani. O candidato pediu a seus seguidores que evitem a violência hoje, aniversário da morte de Ahmed Shah Massud, herói nacional que participou da resistência aos soviéticos e ao Taleban e foi assassinado no dia 9 de setembro de 2001, dois dias antes do atentado ao World Trade Center em Nova York.

Os ataques terroristas levaram Bush a invadir o Afeganistão no dia 7 de outubro daquele ano, dando início à mais longa guerra da história dos EUA. Além da morte de Massud, esta semana marca ainda os 13 anos dos atentados.

Sarah Chayes, do Carnegie Endowment for Peace, observa que a paralisia política no Afeganistão é acentuada pela ausência de um árbitro que seja aceito pelos dois lados. Derrotado por Karzai em 2009 em uma disputa também permeada por suspeitas de fraude, Abdullah está menos disposto agora a aceitar o resultado, disse Chayes, que viveu mais de uma década no Afeganistão.

Mas ainda não está claro qual será o próximo passo do candidato. "Não sabemos ainda o que isso significa", ressaltou Smith, referindo-se à rejeição da recontagem por Abdullah.

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